EU VI O “HOMEM DA CAPA PRETA”

24/07/2020 17:12:26
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Natalício Tenório Cavalcanti de Albuquerque conhecido como o “Homem da Capa Preta”

No mês de julho de 1954, há 66 anos atrás, o Tribunal do Júri da Comarca de Nova Friburgo realizou uma sessão, para julgar um réu acusado da prática de um crime doloso contra a vida. Tratava-se do caso de um operário da Fábrica de Rendas Arp, que ao ser despedido de seu emprego, pelo gerente Frederico Wytte, o esfaqueou no abdómen, atingindo o seu intestino. Foi hospitalizado e, apesar da gravidade do caso, o seu organismo ia reagindo. A vítima resistiu por dois meses, quando veio a falecer.

Comentava-se, na época, o que acarretara a morte do Sr. Wytte, havia sido uma macarronada que a sua esposa lhe servira, num período de recuperação, em que o paciente recebia uma alimentação endovenosa. Tal alimento, impróprio para o seu estado, acabou por lhe causar uma complicação gastrointestinal séria, agravando o seu quadro clínico, levando-o à morte. A situação do criminoso se complicara, pois se até aquele momento o seu crime era catalogado como “Lesão Corporal de Natureza Grave”, art. 129, §1º, inciso II do Código Penal, com a morte da vítima, passava a se enquadrar no art. 121, do referido código, “Homicídio Doloso”.

No dia do Júri, uma pequena multidão cercou a escadaria do antigo Fórum Dr. Júlio Vieira Zamith, na Praça XV de Novembro (ainda não se chamava Getúlio Vargas, sua morte só ocorreria um mês depois), para ver a chegada dos famosos advogados, de acusação Dr. Evandro Lins e Silva, e de defesa o Dr. Tenório Cavalcanti. Este último, aguçava a curiosidade popular, por tratar-se de uma figura polêmica, no cenário político fluminense. A sessão – presidida pelo Juiz de Direito, Dr. Antônio Neder, tendo o Dr. Helênio Verani, como Promotor de Justiça- foi muito longa e, ao final, chegava ao seguinte veredito: réu condenado a oito anos de reclusão. Não houve absolvição mas, mesmo assim, não deixara de ser uma vitória para o advogado de defesa, Tenório Cavalcante, pois pelo art. 121, § 2º do Código Penal, o crime de “Homicídio Qualificado”, tem uma pena de 12 a 30 anos de reclusão.

No dia seguinte, antes de regressar ao seu domicílio, Duque de Caxias, município da Baixada Fluminense, ele – com a excentricidade que lhe era peculiar – desfilou no seu carro, um Cadillac conversível, com a capota arriada, pelas nossas ruas principais. Trajava a sua capa preta, debruada de cetim vermelho (presente de um formando de Direito de Coimbra/Portugal), colete à prova de bala, empunhando garbosamente a famosa “Lourdinha”, sua metralhadora alemã (presente do Gal. Góes Monteiro). Por isto, ele era conhecido tanto pela alcunha do “Homem da Capa Preta”, como do “Homem da Lourdinha”.

Ele era Natalício Tenório Cavalcanti de Albuquerque, nascido em Palmeira dos Índios, Alagoas, em 27 de setembro de 1906, numa família de pequenos proprietários rurais. Chegou ao Rio de Janeiro, aos 20 anos de idade, trazendo uma carta para um tio, que já não se encontrava no Rio. Teve de trabalhar como lavador de garrafas da Brahma, servente de hospital, copeiro de pensão, porteiro, zelador, vendedor no comércio, chegando a ser apontador de obras da rodovia Rio-Petrópolis. Mais tarde, foi ser administrador de uma fazenda em Duque de Caxias, de um cunhado do Ministro Otávio Mangabeira, onde reprimiu uma greve de trabalhadores. Aos poucos, foi adquirindo terras encharcadas que, iriam se valorizar com o saneamento da Baixada Fluminense – trabalho extraordinário desenvolvido pelo abalizado médico sanitarista, Dr. Mário Pinotti, que erradicou a malária naquela região – por volta da segunda metade da década de 1940.

A custo de muito trabalho e estudo, cursou a Faculdade Nacional de Direito, tendo se formado em 1945, já estando casado desde 1931, sendo pai de quatro filhas.Foi vereador, deputado estadual, deputado federal e proprietário do jornal por ele fundado, “A Luta Democrática”, com sede na Praça Onze, no centro do Rio de Janeiro, cujo slogan era: “ Um jornal de luta, feito por homens que lutam por aqueles que não podem lutar”.

José Wilker incorporou Tenório Cavalcanti no filme

Como advogado, em 1959, iniciou uma batalha judicial para anular o julgamento que condenou o Tenente Bandeira (oficial da FAB, no “Crime do Sacopã”, ocorrido no Rio, em 1952), a 15 anos de reclusão, alegando falhas no processo. Após longa tramitação, em 1972, obteve do STF a anulação do julgamento. Contudo, Tenente Bandeira já estava em liberdade, tendo cumprido 7 anos da pena, pois fora beneficiado por indulto concedido a ele e a outros condenados, pelo Presidente Juscelino Kubitscheck, em1979. Tenório nunca duvidou da inocência de Alberto Jorge Bandeira, tanto que não se opôs que ele se casasse com uma de suas filhas, sendo presenteado com uma netinha.

Morava com a família, em Duque de Caxias (RJ), numa residência tão segura, que era uma verdadeira fortaleza. Quando precisava se locomover de um lugar para outro, era sempre rodeado de seguranças, fortemente, armados (chamados de jagunços) e prontos a agir ao menor sinal de perigo. Por atitudes como estas e outras mais, era considerado um homem violento, por isto, temido; pelos atos de solidariedade para com os mais carentes, um benfeitor. Portanto, uma figura polêmica.

Em 1986, foi lançado, como muito sucesso, o filme biográfico “O Homem da Capa Preta”, dirigido por Sérgio Rezende, e no papel principal, o ator José Wilker.

No ano seguinte, no dia 5 de maio em 1987, Natalício Tenório Cavalcanti de Albuquerque, morreu aos 80 anos de idade, em consequência de uma pneumonia.

                                                                                                 “MORRE O HOMEM, FICA A FAMA” (Ataulfo Alves)

Tenório Cavalcanti, sua capa e a submetralhadora alemã,
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