AS EPIDEMIAS AO LONGO DA HISTÓRIA – Parte 2

15/05/2020 11:56:59
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Chafariz na esquina da Rua Aristão Pinto com Gal. Osório

GRIPE ESPANHOLA (uma modificação do vírus influenza- da gripe) foi a mais letal de todas as epidemias dos tempos modernos (ocorreu entre 1918 e 1920), perfazendo uns 50 milhões de vítimas fatais, em todo o mundo. Recebeu tal denominação, por ter sido divulgada, amplamente, pela imprensa espanhola, já que a dos países envolvidos na guerra, sofria censura.   

A gripe teve início nos EUA, no Kansas, num campo militar de treinamento, onde soldados infectados (sem sintomas) foram enviados aos campos de batalha da Europa, por ocasião da Primeira Guerra Mundial. Chegou ao Brasil, em setembro de 1918, através de passageiros contaminados, do navio Demerara, procedente de Liverpool, na Europa, tendo aportado em Recife, Salvador, Rio deJaneiro e em Santos.   

Em todo o Brasil, o total de mortes foi de 35.000. No Recife, em um mês, morreram 1,8 mil pessoas; na capital paulista, foram 5.331 os mortos.  O Rio de Janeiro (na época, Distrito Federal) teve o maior número de vítimas fatais, chegando a quase 14.000.  Eram tantos cadáveres para sepultamento que eles se acumulavam, nos cemitérios e até em vias públicas, quando eram recolhidos e transportados em carroças, em estado de decomposição. Minha mãe que, na época, tinha 5 anos de idade, cuja família morava nas proximidades da Praça 11 de Junho, nunca se esqueceu do mau cheiro exalado pelos corpos, ao serem levados para o Cemitério do Caju, o de maior movimento.     

Os coveiros não davam conta, muitos adoeceram, sendo substituídos por presidiários ou por homens robustos que, estando nas vias públicas, eram requisitados por policiais.                                                                                                    

Os leitos da Santa Casa de Misericórdia não eram suficientes para acomodar tantos infectados, e a imaginação popular criou a lenda d’ O Chá da Meia-Noite, uma beberagem ministrada aos pacientes mais graves, à noite, para abreviar-lhes a vida, dando vaga aos que tivessem mais chance de viver.                                                                                                          

Muitas medidas foram tomadas pelas autoridades sanitárias.  No comércio, ficaram fechados: bares, lojas de tecidos, alfaiatarias, barbearias, teatros, confeitarias, estabelecimentos de ensino. Como o auge da epidemia se deu a partir de setembro de 1918, os alunos foram aprovados por decreto.O Presidente da República Rodrigues Alves reeleito, não chegou a ser empossado para exercer o segundo mandato, pois foi vítima fatal da epidemia.                                                                                                   

Não havia uma medicação específica para combater ou prevenir o mal, surgindo muitas receitas caseiras.  A que se tornaria mais conhecida era uma surgida em São Paulo, uma mistura de cachaça, limão e mel, que dizem ter dado origem à popular e brasileiríssima “Caipirinha”.

Meu avô Rathar Lopes foi vítima da Febre Tifóide em 1923

NOVO CORONA VIRUS-COVID 19 (uma nova mutação do vírus influenza-da gripe), um século depois da  Gripe Espanhola, nos nossos dias, está grassando de forma violenta, em todo o mundo, fazendo milhares de vítimas fatais.  Estamos em plena pandemia.  Só Deus sabe quando terminará, voltando a vida à normalidade.

FEBRE AMARELA, causada pelo mosquito “aedes aegypti”, nos Séculos XVIII e XIX, era uma das mais perigosas doenças infecciosas, tendo afetado, em 1903, a cidade do Rio de Janeiro, causando 469 óbitos. O Dr. Oswaldo Cruz iniciou a “Campanha Contra a Febre Amarela”, com a vacinação obrigatória e a pulverização dos imóveis, com gás sulfuroso (atividade realizada pelos mata mosquitos), tendo a campanha alcançado êxito.

Voltou a castigar a cidade do Rio de Janeiro, em 1928, fazendo 436 vítimas fatais. Uma delas, foi uma jovem de 15 anos, a Inezita, da vizinhança de minha família, em Vila Isabel. O Dr. Clementino Fraga, Diretor- Geral da Saúde Pública, usou as mesmas medidas empregadas por Dr. Oswaldo Cruz, em 1903, contando com uma equipe composta por 70 médicos, 30 enfermeiros e 140 estudantes de Medicina. Meu pai, Salim Lopes, fazia parte deste último grupo, pois cursava, na época, o quinto ano da Faculdade de Medicina da Universidade do Rio de Janeiro.

A FEBRE TIFÓIDE, com casos dispersos, em Nova Friburgo, (como o do meu avô Rathar Lopes, que morreu aos 47 anos, em 1923) teve um surto, nos anos de 1935/36, com um número elevado de mortes. Os contaminados eram colocados na carroceria de caminhõezinhos, cobertos por uma lona verde (apelidados pelo povo de “Maria Verde”) e levados para o Lazareto (que havia servido de isolamento, na época da epidemia de varíola, no final do Século XIX, primeira década do Século XX ), em Duas Pedras.  Lá cumpriam a “temida” quarentena. 

Para beber, cozinhar os alimentos, lavar as hortaliças, as pessoas se valiam da água dos chafarizes espalhados pelo centro da cidade: um, na esquina da Rua Gal. Osório com a atual Aristão Pinto; mais um, no “Ponto dos Automóveis”, na praça, hoje chamada  Dr. Demerval B. Moreira; outro, na esquina da  Alberto Braune com a Rua Monte Líbano(lado par); ainda, o da Alberto Braune, em frente ao imóvel de nº 71; finalmente, o da Alberto Braune esquina da Modesto de Mello(rua que vai para o cemitério, lado par.)

A febre tifóide só foi erradicada em nossa cidade e os friburguenses passaram a contar com água potável, a partir da construção da “Represa do Debossan”, pelo Prefeito Dante Laginestra (de 1935 a 1946), que captou as águas  do Rio Debossan. Mesmo assim, ainda perdurou por alguns anos, o hábito de buscar água nos chafarizes.                                                                                                                 

 

     

Chafariz no atual Centro de Turismo, perto do ponto de táxi
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