Estreia esta semana nos cinemas em Nova Friburgo Digger, nova comédia satírica de humor negro dirigida pelo mexicano Alejandro González Iñárritu. Estrelado por um irreconhecível Tom Cruise, o filme marca o retorno do diretor ao cinema de ficção em língua inglesa e mergulha em uma história caótica sobre ganância, poder, megalomania e os riscos de um colapso ambiental e geopolítico. A trama acompanha Digger Rockwell (Tom Cruise), um excêntrico magnata do petróleo considerado o homem mais poderoso e influente do mundo. Entre seus objetos mais valiosos está uma velha pá, relíquia de família que pertenceu ao avô responsável pelo início do império. Quando uma de suas ações acaba contribuindo para desencadear uma crise de proporções catastróficas, Digger parte para uma corrida desesperada na tentativa de convencer o mundo e a si próprio de que ainda pode ser o grande responsável por salvá lo. O que se segue é uma sucessão de situações cada vez mais absurdas, envolvendo decisões políticas, conspirações, reuniões de emergência e crises que rapidamente ganham repercussão pública. Iñárritu usa o comportamento delirante de seu protagonista como ponto de partida para construir uma sátira que brinca com a necessidade de poder, a manipulação da imagem pública e a dificuldade de reconhecer os próprios erros. Visualmente ambicioso, o longa combina humor ácido, crítica social e uma atmosfera de constante tensão. A fotografia e o desenho de som contribuem para criar um mundo grandioso e sufocante, no qual o absurdo frequentemente se aproxima do trágico. Tom Cruise surpreende justamente por abandonar a imagem do herói determinado e quase invencível que marcou boa parte de sua carreira. Aqui, o ator aposta em uma interpretação exagerada e caricata, mas também revela as inseguranças e a paranoia de um homem acostumado a controlar tudo ao seu redor e que, diante do caos, já não consegue controlar nem a própria narrativa. O elenco ainda conta com Sandra Hüller, Riz Ahmed, John Goodman, Michael Stuhlbarg, Jesse Plemons e Emma D’Arcy, que ajudam a ampliar o retrato de um mundo político e empresarial completamente fora dos eixos. Digger chega aos cinemas como uma opção para quem procura uma comédia diferente, provocativa e disposta a transformar o excesso de poder e a vaidade das elites em matéria prima para o humor. Vale o ingresso e a classificação indicativa é de 16 anos.
Depois de conquistar o público infantil com músicas que atravessaram gerações e se tornaram parte da rotina de muitas famílias brasileiras, a Galinha Pintadinha finalmente ganha uma aventura própria nas telas do cinema. Em Galinha Pintadinha: O Filme, a personagem deixa por algum tempo o formato dos vídeos musicais para viver uma história de família, encontros inesperados e uma viagem que coloca seus personagens diante de um problema bastante diferente daqueles que costumam aparecer na Vila das Galinhas. Tudo começa com a expectativa pelo nascimento do primeiro filho da Galinha Pintadinha e do Galo Carijó, mas uma confusão envolvendo uma cegonha provoca uma troca de ovos. O Pintinho Amarelinho acaba no ninho de um Gavião, enquanto um pequeno filhote da ave vai parar justamente entre as galinhas. A situação poderia parecer apenas uma grande confusão, mas serve de ponto de partida para uma aventura que leva a Galinha Pintadinha para longe de casa em busca do filho. No caminho, ela precisa lidar com o medo que o Gavião provoca nos moradores da vila e, principalmente, descobrir que nem sempre aquilo que parece ameaçador corresponde à realidade. A proposta também permite que o filme explore uma relação pouco comum entre personagens que, à primeira vista, deveriam estar em lados opostos. A animação preserva as músicas e a identidade visual que fizeram da Galinha Pintadinha um fenômeno entre as crianças, mas amplia esse universo com novos personagens, cenários e uma narrativa pensada para o cinema. Para os pequenos que já conhecem a personagem, a graça está em reencontrá la em uma aventura diferente daquela vista nos vídeos. Para os pais, existe ainda o componente afetivo de acompanhar no cinema uma personagem que fez parte da infância de seus próprios filhos. Mais do que transformar a Galinha Pintadinha em uma heroína de ação, o filme aposta em uma história sobre família, proteção e diferenças, utilizando uma aventura simples para falar sobre o medo do desconhecido e a importância de olhar além das aparências. É uma produção claramente voltada para as crianças, mas construída para funcionar também como um programa em família, mantendo o universo musical da personagem enquanto experimenta uma narrativa mais longa e cinematográfica. Vale o ingresso e a classificação indicativa é para 6 anos.
Para quem sente vertigem só de olhar para uma fotografia tirada do alto de um prédio, A Queda 2: No Limite talvez seja o tipo de filme capaz de transformar a poltrona do cinema em um lugar desconfortável. A sequência do suspense de 2022 retoma a obsessão da franquia por alturas extremas, mas coloca no centro uma personagem que carrega um motivo ainda mais pessoal para desafiar o próprio medo. Depois da morte da irmã Shiloh, Jax Hunter se aproxima de Luce, uma amiga que também conhecia Shiloh, e as duas acabam embarcando em uma aventura na Tailândia. O objetivo parecia ser uma experiência radical em uma passarela suspensa no Monte Kwan, mas um deslizamento de rochas muda completamente a situação e deixa as duas presas em uma estreita estrutura a milhares de metros do chão. A partir daí, não existe muito espaço para heroísmo convencional. Cada movimento precisa ser calculado, qualquer tentativa de avançar pode significar uma queda e o próprio corpo passa a ser um obstáculo quando o medo começa a dominar. É nesse ambiente limitado que o filme constrói seu suspense, explorando não apenas a ameaça física, mas também o vínculo entre duas mulheres obrigadas a confiar uma na outra quando praticamente todas as alternativas desaparecem. Harriet Slater e Arsema Thomas assumem os papéis principais, enquanto os irmãos Michael e Peter Spierig ficam responsáveis pela direção, levando para a continuação uma proposta em que a câmera e a altura são fundamentais para provocar a sensação de perigo. O resultado aposta menos em grandes cenários de ação e mais naquela angústia bastante simples de observar alguém em uma situação da qual parece impossível sair. Esse é um suspense para quem gosta de testar os próprios nervos e descobrir até onde consegue suportar a combinação de silêncio, altura e uma personagem sem saída. Vale o ingresso e a classificação indicativa é 16 anos.
Baseado no best seller de Colleen Hoover, Verity chega aos cinemas tentando transformar uma história de segredos, desejo e manipulação em um thriller psicológico de atmosfera sombria. Dirigido por Michael Showalter, o filme acompanha Lowen Ashleigh (Dakota Johnson), uma escritora em dificuldades que recebe a tarefa de concluir a série de livros de Verity Crawford (Anne Hathaway), uma autora famosa que ficou incapacitada depois de um misterioso acidente. Para conhecer melhor o trabalho da escritora, Lowen se instala na propriedade da família e rapidamente percebe que aquela casa guarda muito mais do que manuscritos inacabados. Entre as descobertas está um texto secreto atribuído a Verity, repleto de revelações perturbadoras sobre o passado da família, que coloca em dúvida tudo aquilo que parecia conhecido sobre seus personagens. É justamente nesse jogo entre ficção e realidade que o filme encontra sua melhor matéria prima. Showalter constrói uma atmosfera elegante e inquietante, utilizando a casa, os silêncios e a relação entre os três protagonistas para criar uma sensação constante de desconfiança. A fotografia contribui para esse clima, enquanto a trilha sonora reforça os momentos de tensão sem transformar o suspense em algo excessivamente convencional. Dakota Johnson encontra em Lowen uma personagem vulnerável, mas suficientemente ambígua para sustentar a dúvida sobre suas intenções, enquanto Josh Hartnett funciona bem como Jeremy, o marido envolvido em uma relação familiar cada vez mais difícil de compreender. Mas é Anne Hathaway quem acaba dominando o filme. Mesmo limitada fisicamente durante boa parte da história, a atriz consegue transformar Verity em uma presença inquietante, alternando fragilidade, sedução e ameaça com bastante segurança. O principal problema está no roteiro de Nick Antosca, que nem sempre consegue equilibrar as diferentes tonalidades da história. O filme oscila entre suspense psicológico, drama familiar e romance erótico, e algumas situações acabam exigindo mais credulidade do espectador do que o necessário. Ainda assim, Verity consegue manter o interesse justamente por trabalhar com personagens sobre os quais nunca é possível ter certeza absoluta. Não é um thriller interessado apenas em descobrir quem está dizendo a verdade, mas em explorar como uma história pode ser manipulada por quem tem o poder de contá-la. O resultado é um suspense irregular, mas visualmente sofisticado e sustentado por um elenco que encontra boas oportunidades dentro de um material deliberadamente melodramático. Vale o ingresso e a classificação indicativa é 16 anos.
Recém chegado ao catálogo da Netflix, Cinema, Aspirinas e Urubus é a dica desta semana para assistir em casa. É uma ótima oportunidade para conhecer ou rever um dos filmes mais marcantes do cinema brasileiro recente. Dirigido por Marcelo Gomes, o longa acompanha o encontro entre um sertanejo em busca de novos caminhos e um alemão que percorre o Nordeste vendendo aspirinas e exibindo filmes para pequenas comunidades. A viagem pelos sertões brasileiros durante a Segunda Guerra Mundial serve como pano de fundo para uma história delicada sobre amizade, solidão e sobrevivência. João Miguel e Peter Ketnath estão muito bem em uma produção que encontra força justamente nos silêncios, nos diálogos e na paisagem. Uma opção interessante para quem prefere um cinema brasileiro mais humano, autoral e distante das fórmulas convencionais.









