Chega esta semana aos cinemas em Nova Friburgo Super Mario Galaxy: O Filme. Essa estreia marca uma expansão ambiciosa da parceria entre Nintendo e Illumination, elevando o patamar técnico da animação contemporânea. O longa abandona a linearidade terrestre do primeiro filme para mergulhar em uma odisseia espacial que, embora visualmente exuberante, nunca perde de vista a precisão mecânica que define a franquia nos consoles. A direção utiliza o conceito de gravidade esférica, marca registrada do jogo de 2007, onde a câmera desafia constantemente os eixos tradicionais. O resultado é uma experiência cinematográfica de vertigem controlada, que utiliza a profundidade de campo e a iluminação volumétrica para dar vida a galáxias que parecem saltar da tela. A estética mantém o design arredondado e amigável da marca. O roteiro acerta ao introduzir a Princesa Rosalina não apenas como uma figura mística, mas como o centro gravitacional emocional da narrativa. Sua origem traz uma camada de melancolia sutil que equilibra o humor hiperativo de Mario e Luigi. A estrutura narrativa adota o formato de “jornada do herói cósmico”, mas subverte clichês ao colocar o trabalho em equipe e a exploração do desconhecido acima do combate direto. O design de som e a mixagem são peças fundamentais. O silêncio do vácuo espacial é pontuado por efeitos sintéticos que remetem aos 8-bits, criando uma textura nostálgica para os veteranos, enquanto as explosões de cores e partículas cativam a nova geração. A dublagem mantém o carisma e a energia necessários para sustentar o ritmo frenético da montagem. Embora a animação flerte com o excesso de fanservice em certos momentos, a solidez da construção de mundo e o esmero técnico na animação de fluidos e luzes garantem que a obra seja mais do que uma peça de marketing. Vale o ingresso pela escala grandiosa e pela competência em traduzir a sensação de descoberta dos jogos para a linguagem do cinema. Um espetáculo vibrante que prova que, nas telas, o universo de Mario não conhece fronteiras. A classificação Indicativa e livre para todos os públicos.
A outra estreia desta semana nos cinemas é A Última Ceia. Estrategicamente inserido no feriado da Semana Santa, o filme é profundamente ancorado na arte conceitual de Hollywood. Ele tenta transformar o evento litúrgico em um quadro vivo de alta sofisticação visual. No entanto, o filme caminha em uma linha tênue entre a beleza plástica e o vazio narrativo, entregando uma obra que, embora visualmente bela, por vezes carece de alma. A direção de Borrelli opta por uma estética que reverencia o claro-escuro de Caravaggio, utilizando a luz para esculpir os rostos dos apóstolos com uma precisão técnica impressionante. Contudo, essa estética excessivamente limpa e controlada acaba por retirar a crueza histórica do momento. O cenário soa, em certos atos, mais como um set de filmagem meticuloso do que como uma humilde sala na Jerusalém do Século I, o que pode distanciar o espectador que busca uma imersão mais visceral. O roteiro tenta humanizar os apóstolos, mas acaba preso em diálogos que flertam com o didatismo. Ao tentar explicar cada símbolo da ceia para o público, a narrativa perde o ritmo e subestima a inteligência do espectador. Onde deveria haver tensão psicológica pela traição iminente, muitas vezes encontramos uma linguagem teatral que torna o segundo ato arrastado. O coração do longa reside na performance central, mas mesmo ela sofre com a falta de dinamismo. O Cristo de Borrelli é mais uma estátua de mármore do que um homem enfrentando o seu destino final. Para o público-alvo religioso, o filme funciona como uma peça de devoção estética, respeitando a liturgia e oferecendo uma experiência contemplativa válida para o período de reflexão da Semana Santa. Porém, para o cinéfilo mais exigente, a obra deixa a desejar no desenvolvimento de personagens secundários, que são reduzidos a arquétipos sem profundidade. O uso de efeitos de pós-produção para enfatizar elementos divinos também soa artificial, quebrando a organicidade que uma história dessa magnitude exige. Embora se perca em soluções convencionais e no excesso de reverência, o filme entrega uma fotografia rigorosa que justifica a exibição em tela grande. Vale o ingresso pela experiência visual e pelo contexto da época, mas fica o alerta: é uma obra que prioriza a moldura em detrimento da tela, resultando em um espetáculo que é lindo de ver, mas ocasionalmente frio de sentir. A classificação Indicativa é para maiores de 12 anos.
Nesta semana temos também o relançamento de Ben-Hur nos cinemas em Nova Friburgo durante a Semana Santa. É o chamado “cinema de espetáculo” que Hollywood parece ter esquecido. A direção de William Wyler, apoiada na cinematografia em 70mm, ainda entrega uma profundidade de campo e uma opulência visual que desafiam os efeitos digitais contemporâneos. O roteiro equilibra com precisão o épico de vingança e o subtexto religioso, utilizando a figura de Cristo como um centro de gravidade moral nunca plenamente revelado, o que preserva sua mística. Contudo, para o público atual, o ritmo cadenciado e a duração de quase quatro horas podem soar como um teste de resistência, evidenciando um estatismo narrativo em diálogos que hoje parecem excessivamente declamatórios. A atuação de Charlton Heston, embora icônica, carece da sutileza exigida pelo drama moderno, pendendo para um heroísmo unidimensional. Ainda assim, a sequência da corrida de quadrigas permanece como uma aula de montagem e efeitos práticos, justificando o ingresso pela oportunidade de testemunhar um pilar da história do cinema em sua escala original. A classificação Indicativa é para maiores de 14 anos.
A dica desta semana santa para assistir em casa vai para O Milagre (The Wonder). Disponível na Netflix, a história se passa em uma Irlanda antiga e cinzenta, onde uma enfermeira é contratada para investigar uma menina que diz não comer há meses, sobrevivendo apenas de “maná do céu”. O que começa como um mistério religioso logo vira um suspense, mostrando o embate entre a fé cega e a busca pela verdade. O filme não entrega respostas fáceis e foge daquela fórmula comum de dramas religiosos, preferindo focar na força de uma mulher que decide fazer o que é certo, mesmo quando todos estão contra ela. É uma história bonita sobre redenção e o poder da compaixão, com um visual de encher os olhos que ajuda a criar aquele clima de isolamento e mistério. É uma trama inteligente que emociona sem ser piegas.









