A primeira estreia desta semana nos cinemas em Nova Friburgo é A Noiva! A direção de Maggie Gyllenhaal consolida sua transição para uma cineasta de visão audaciosa, revitalizando o mito de Mary Shelley com uma estética punk e gótica que foge das convenções do terror. O roteiro transpõe a icônica personagem para a Chicago dos anos 1930, focando na jornada de autodescoberta de uma mulher que se rebela contra seu criador e a sociedade machista. Embora o visual sombrio atraia cinéfilos, o público-alvo são adultos que buscam dramas psicológicos com subtextos feministas potentes. As atuações são o pilar da obra. Jessie Buckley entrega uma performance visceral e eletrizante, enquanto Christian Bale humaniza o Monstro com uma melancolia inédita. Na produção, o design detalhista e a fotografia noir criam uma atmosfera imersiva, unindo a elegância do passado a uma crueza industrial. No entanto, apesar de podermos ver a obra como um “delírio punk” e uma experiência caótica e criativa que prioriza a sensação de rebeldia, e a coragem de Gyllenhaal em criar algo eletrizante e descaradamente extravagante, celebrando a química inigualável entre Bale e Buckley, o filme muitas vezes tropeça na própria ambição. Temos uma narrativa incoerente e sobrecarregada de ideias que não se costuram bem. É um manifesto didático que tenta abraçar gêneros demais, de musicais a filmes de gângster, sem manter a coesão. A Noiva! não é um filme para quem busca conforto ou uma história redondinha. É uma obra feita para quem gosta de ser desafiado por uma estética “suja”, atuações viscerais e uma narrativa que explode os clichês do terror clássico. Vale o ingresso e a indicação etária é para maiores de 16 anos.
A outra estreia desta semana é Cara De Um, Focinho De Outro. Essa animação marca um retorno da Pixar a uma linguagem mais audaciosa e menos convencional, utilizando um timing cômico ágil e ângulos de câmera que mergulham o espectador na perspectiva animal de forma vibrante e tecnicamente impecável. O roteiro, escrito por Jesse Andrews, equilibra com maestria a fantasia e a crítica social, utilizando a premissa inusitada da transferência de consciência para abordar temas densos como empatia, preservação e o choque entre o progresso urbano e a natureza, sem nunca soar excessivamente didático ou moralista. Embora o design carismático e as situações de comédia física puramente visual atraiam as crianças menores, o verdadeiro público-alvo parece ser a Geração Z e os jovens adultos, que se identificam prontamente com os dilemas existenciais de pertencimento da protagonista Mabel e com o humor irônico e levemente satírico que permeia os diálogos. No aspecto técnico, a qualidade da animação atinge um patamar de excelência ao fundir texturas hiper-realistas, visíveis na renderização minuciosa de pelos, penas e na fluidez da água, com expressões faciais mais elásticas e cartunescas, criando uma identidade visual única que foge do óbvio e prioriza a expressividade dos personagens. A trilha sonora de Mark Mothersbaugh amarra essa experiência, conferindo uma energia quase épica a situações cotidianas da vida selvagem. A animação se destaca como uma obra autoral e corajosa que prefere arriscar na energia criativa e no absurdo do que se acomodar na segurança de fórmulas narrativas saturadas, reafirmando que a Pixar ainda consegue surpreender quando decide sair da sua zona de conforto. Vale muito o ingresso e a indicação etária é para maiores de 6 anos.
A dica desta semana para assistir em casa vai para Vladimir. Disponível na Netflix a série é um prato cheio para quem busca um drama psicológico denso e atualizado. O grande motivo para assistir é o seu mergulho profundo na ambiguidade moral, fugindo de heróis e vilões caricatos. Com uma atuação visceral que sustenta o ritmo introspectivo, a trama prende pela tensão constante e pelos diálogos afiados. Se você aprecia roteiros que desafiam suas percepções éticas e gosta de ver a desconstrução de um personagem complexo, essa minissérie é uma boa escolha.








