Estreia esta semana nos cinemas em Nova Friburgo Família de Aluguel. Dirigido por Hikari (Mitsuyo Miyazaki), essa obra carrega profunda delicadeza ao explorar as lacunas emocionais de uma sociedade hiperconectada, porém solitária. O longa evita o tom documental ou puramente cômico que o tema do mercado de afeto japonês costuma atrair. Em vez disso, a diretora utiliza uma estética visual que equilibra a organização geométrica de Tóquio com a bagunça interna de seus personagens, criando uma atmosfera onde o silêncio e o espaço negativo dizem tanto quanto os diálogos. Sua mão é firme ao guiar o espectador por uma cultura de aparências sem cair no exotismo, tratando o ato de alugar uma família como uma extensão lógica da necessidade humana de pertencimento. O roteiro, assinado por Hikari e Stephen Blahut, brilha ao colocar Philip, interpretado por Brendan Fraser, como o epicentro dessa busca por identidade. Na trama, Philip é um ator americano em declínio que descobre um novo propósito ao atuar em cenários da vida real, preenchendo vazios em árvores genealógicas alheias. O texto navega habilmente entre o humor melancólico e o drama existencial, questionando a natureza da autenticidade: se uma conexão emocional é genuína em sua entrega, o fato de ela ter sido mediada por uma transação financeira a torna menos real? Embora o roteiro flerte com soluções sentimentais no terceiro ato que podem parecer convencionais para alguns, ele mantém a integridade ao focar na jornada de redenção pessoal do protagonista. O elenco é, sem dúvida, o pilar que sustenta a carga emocional do filme. Brendan Fraser utiliza sua vulnerabilidade característica para dar vida a um homem que, ao “fingir” ser parte da família de outros, finalmente começa a entender a sua própria falta de raízes. Sua interação com o elenco japonês, especialmente com Mari Yamamoto, é marcada por um contraste de energias que simboliza o encontro entre o idealismo ocidental e o pragmatismo muitas vezes austero do cotidiano japonês. A química entre eles humaniza a estrutura corporativa da agência de aluguel, transformando o que poderia ser uma crítica social cínica em um estudo de personagem compassivo. Essa é uma das colaborações transculturais mais bem-sucedidas dos últimos anos embora a obra poderia ter mergulhado de forma mais ácida nas implicações capitalistas de “comprar afeto”. No fim, o filme de Hikari não busca julgar o serviço de aluguel de pessoas, mas sim oferecer um olhar empático sobre a fragilidade dos vínculos modernos, reafirmando que, independentemente do contrato, a necessidade de ser amado e ouvido é universal. Vale muito o ingresso e a indicação etária é para maiores de 12 anos.
Outra estreia desta semana nos cinemas em Nova Friburgo é Tom & Jerry: Uma Aventura no Museu. Essa é uma tentativa ambiciosa de revitalizar a franquia, celebrando seus 85 anos com uma guinada estética e cultural. A direção de Gang Zhang rompe com o modelo híbrido (live-action com animação) do filme de 2021, apostando inteiramente no 3D e em uma coprodução sino-americana que transporta a icônica rivalidade para um cenário de fantasia histórica na China. Visualmente, o filme é um espetáculo de texturas e cores, utilizando o motor de animação para criar ambientes detalhados que homenageiam a iconografia asiática, embora a técnica de animação dos personagens em si, em alguns momentos, pareça carecer da fluidez caótica e elástica que definia os desenhos originais de Hanna-Barbera. O enredo coloca a dupla em uma perseguição dentro de um museu que culmina na descoberta de um objeto mágico lançando-os em uma jornada através do tempo e do espaço para a China antiga. O roteiro, escrito por Zhang Gang e Lindsay Katai, tenta expandir o universo da franquia introduzindo novos personagens, como a gata Jade e o vilão Xander, o “Mega-Rat”. No entanto, essa expansão é o ponto controverso. Ao focar em uma narrativa de “fantasia épica” com mestres e profecias, o roteiro muitas vezes ofusca a simplicidade da dinâmica gato-e-rato. Tom e Jerry, que historicamente funcionam melhor em cenários domésticos ou situações mundanas levadas ao absurdo, acabam parecendo passageiros em sua própria aventura, servindo a uma trama que, em certos trechos, se torna confusa para o público infantil e excessivamente distante da essência da dupla para os fãs nostálgicos. É uma franquia que tenta se reinventar constantemente, mas sem um norte claro. Visualmente a animação é rica e ideal para as férias, mas o filme se perde em eventos sem consequências e falha em capturar o timing cômico que tornou a dupla imortal. Embora seja uma aventura visualmente bonita e uma curiosidade cultural interessante, a animação luta para justificar sua existência como longa-metragem, sugerindo que a magia de Tom e Jerry talvez resida mais na brevidade dos curta-metragens do que em épicos de 90 minutos. Ainda assim, vale o ingresso e a indicação etária é livre para todas as idades.
A última estreia desta semana nos cinemas em Nova Friburgo é Agentes Muito Especiais. Essa é uma comédia de ação com uma roupagem de espionagem satírica. Sob a direção de Pedro Antonio, conhecido por sucessos de bilheteria como Um Tio Quase Perfeito, a obra adota uma linguagem ágil e acessível, focada no tempo da comédia física e na dinâmica entre os protagonistas. A direção busca emular as grandes produções de Hollywood, mas insere um tempero local ao utilizar o Rio de Janeiro não apenas como cenário, mas como um elemento ativo da trama, explorando o contraste entre o glamour esperado de agentes secretos e o caos urbano cotidiano. O roteiro, assinado por Célio Porto e pelo próprio Pedro Antonio, acompanha uma dupla improvável de agentes que, apesar falta de preparo e de recursos tecnológicos de ponta, precisa impedir uma ameaça de escala nacional. A narrativa utiliza os clichês do gênero de espionagem como o antagonista caricato e os aparatos tecnológicos pouco confiáveis como combustível para o humor. Ainda que o roteiro se ancore na previsibilidade das parcerias cinematográficas tradicionais, ele encontra sua força na conexão orgânica entre os protagonistas e no ridículo das situações que emergem do improviso. Contudo, há momentos em que a fluidez da história é preterida em prol de piadas isoladas, resultando em uma oscilação rítmica perceptível na metade do filme. O elenco é o grande trunfo da produção. A escolha de Marcus Majella e Caito Mainier garante ao filme um tom de comédia que transita entre o escracho e o humor seco. Majella traz sua energia expansiva e carisma popular, enquanto Mainier oferece um contraponto cínico e autodepreciativo que funciona muito bem na tela. A interação entre os dois eleva o material original, transformando diálogos simples em momentos de genuína diversão. O elenco de apoio, que conta com nomes como Rafael Infante, ajuda a manter a energia do filme alta, mesmo quando a ação se torna mais contida por limitações orçamentárias. Sem a pretensão de subverter o gênero ou mergulhar em camadas narrativas complexas, a obra cumpre sua promessa ao oferecer um entretenimento despretensioso, sustentado por um valor de produção que se destaca no cenário das comédias nacionais contemporâneas. Vale o ingresso e a indicação etária é para maiores de 14 anos.
A dica para assistir em casa desta semana vai para The Pitt. Confesso que não sou fã de séries sobre hospitais, mas essa me pegou. Com uma atmosfera realista ela se destaca por focar na exaustiva rotina de um hospital público em Pittsburgh. Protagonizada por Noah Wyle (que retorna ao gênero após ER), a série abandona o glamour melodramático de outras produções para priorizar os desafios éticos e estruturais do sistema de saúde atual. A narrativa é ágil e imersiva, utilizando casos médicos complexos como pano de fundo para discutir a resiliência humana e o impacto do esgotamento profissional. É uma escolha sólida para quem busca uma abordagem mais madura e técnica sobre o cotidiano dos profissionais de linha de frente. Disponível na HBO MAX.









