Filmes da semana de 12/03 a 18/03

12/03/2026 11:59:53
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A primeira estreia desta semana nos cinemas em Nova Friburgo é Missão Refúgio que traz Jason Statham em um terreno conhecido, mas sob uma lente mais densa e física. A direção de Ric Roman Waugh, cineasta já habituado a thrillers de sobrevivência e tensão constante, entrega uma obra que tenta equilibrar o espetáculo da ação com um estudo de personagem mais austero. O roteiro, embora se apoie na estrutura clássica do “protetor relutante”, utiliza o isolamento de uma ilha remota para criar uma atmosfera de suspense, onde a natureza é tão implacável quanto os inimigos que emergem do passado do protagonista. As atuações elevam o material acima do genérico. Statham, em uma performance que exige menos diálogos e mais presença física, humaniza Michael Mason através de uma melancolia contida, enquanto a jovem Bodhi Rae Breathnach foge dos estereótipos de “donzela em perigo”, estabelecendo uma química de silêncios e desconfianças com o veterano. A presença de nomes como Bill Nighy e Naomi Ackie confere um peso institucional à trama, transformando o que poderia ser uma simples perseguição em um embate de forças políticas e morais. A fotografia de Martin Ahlgren aproveita a crueza das tempestades e o design de som enfatiza o realismo dos impactos, priorizando uma coreografia de lutas visceral em vez de cortes frenéticos e confusos. Contudo, o filme não escapa totalmente das armadilhas do gênero. Em sua segunda metade, a narrativa acelera para uma escala conspiratória que por vezes atropela o desenvolvimento emocional estabelecido no início. A transição da introspecção para o thriller de ação de alta voltagem pode parecer brusca para quem esperava um drama de sobrevivência mais puro. Missão Refúgio não tenta reinventar a roda, mas a executa com uma competência técnica acima da média. É um filme para quem aprecia a estética da ação séria, onde cada soco tem peso e cada decisão tem consequências. Vale o ingresso pela precisão da direção e pelo esforço em dar profundidade a um ícone do gênero. A classificação indicativa é para maiores de 16 anos.

A outra estreia desta semana é POV: Presença Oculta. Esse filme marca o retorno de Steven Soderbergh ao cinema de gênero com uma proposta experimental que desafia a gramática tradicional do suspense. A direção abdica do voyeurismo clássico para adotar uma perspectiva radical: a câmera é a entidade. Soderbergh, operando também como diretor de fotografia (sob seu pseudônimo habitual Peter Andrews), utiliza lentes grande-angulares e movimentos fluidos para transformar o espectador em uma força invisível que habita a nova casa de uma família em crise. O roteiro de David Koepp subverte a estrutura das “casas mal-assombradas”, focando menos em sustos fáceis e mais nas microagressões e segredos de uma dinâmica familiar em frangalhos. As atuações sustentam o peso da narrativa, que exige uma entrega naturalista diante de uma câmera fantasmagórica. Lucy Liu entrega uma performance tensa e autoritária como a matriarca controladora, enquanto a jovem Callina Liang atua como o centro emocional da obra, estabelecendo uma conexão melancólica e perturbadora com a presença que a observa. A escolha de Soderbergh em manter a câmera sempre em movimento, simulando uma consciência errante, cria uma atmosfera de invasão de privacidade que é, ao mesmo tempo, técnica e visceral. Na produção, o design de som é o verdadeiro protagonista. A ausência de uma trilha sonora intrusiva permite que os ruídos ambientes, o ranger do assoalho, o eco das discussões nos corredores amplifiquem o desconforto. No entanto, a obra pode frustrar o público que busca o terror convencional de jump scares. Ao priorizar a experimentação estética e o exercício de linguagem, o filme por vezes sacrifica a urgência do clímax em favor de uma observação quase clínica. É um “filme de conceito” que exige paciência para processar o subtexto sobre luto e vigilância. POV: Presença Oculta não é apenas um thriller, mas um manifesto técnico sobre as possibilidades da perspectiva no cinema moderno. É uma obra feita para quem aprecia a coragem formal de Soderbergh e busca uma experiência imersiva que prioriza a sensação de onipresença sobre o medo explícito. Vale o ingresso pela ousadia técnica e pela direção de arte minimalista. A indicação etária é para maiores de 14 anos.

A dica desta semana para assistir em casa vai para Mil Golpes. Disponível na Disney +, a série é para quem busca um drama histórico com a abordagem de um thriller moderno. O grande triunfo da obra, criação de Steven Knight, é a troca do glamour vitoriano pela crueza das lutas clandestinas da Londres de 1880. Com atuações magnéticas de Malachi Kirby e Stephen Graham, a trama prende pela tensão física e pelo roteiro que explora a sobrevivência de um imigrante em um cenário de extrema hostilidade. Se você aprecia produções com estética apurada, diálogos cortantes e personagens que habitam zonas cinzentas da moralidade, esta minissérie é a uma boa escolha para o seu final de semana.

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