Estreia esta semana nos cinemas em Nova Friburgo Devoradores de Estrelas. Essa é uma das ficções científicas mais ambiciosas da temporada. A obra compreende perfeitamente seu papel como um épico de sobrevivência, equilibrando o otimismo científico característico de Andy Weir com a escala visual grandiosa de um blockbuster moderno. O roteiro se destaca por manter a agilidade da narrativa original, utilizando flashbacks estratégicos que revelam a missão desesperada da humanidade enquanto o protagonista tenta recuperar sua memória em uma nave isolada no espaço profundo. Ao colocar Ryland Grace, interpretado por Ryan Gosling, em uma posição de isolamento absoluto e amnésia pós-traumática, o texto tece comentários sutis sobre o sacrifício individual em prol do coletivo e a capacidade humana de adaptação. Embora o foco principal permaneça na resolução de problemas complexos e na ciência, a trama ganha uma camada emocional inesperada ao introduzir uma das alianças mais improváveis da história do gênero. No enredo, Grace acorda como o único sobrevivente de uma missão para salvar a Terra de uma extinção solar, precisando usar seu intelecto para navegar por um sistema estelar desconhecido. A direção da dupla Phil Lord e Christopher Miller opta por uma estética vibrante que foge do visual sombrio e opressor de outras ficções científicas espaciais. A dupla demonstra maturidade ao traduzir conceitos físicos complexos em sequências de montagem dinâmicas, preferindo construir o senso de maravilhamento por meio de descobertas visuais e soluções engenhosas. A cinematografia utiliza o vácuo do espaço não como um cenário vazio, mas como um elemento de tensão constante, destacando a fragilidade da tecnologia humana diante da imensidão do cosmos. O elenco sustenta o longa quase inteiramente no carisma e na vulnerabilidade de Ryan Gosling. O ator entrega uma performance física e expressiva, equilibrando o humor autodepreciativo do personagem com momentos de desespero genuíno. Essa dinâmica é o coração do longa, elevando o material acima de outras produções puramente técnicas. O uso de efeitos práticos e digitais para a interação com elementos não-humanos é impecável, garantindo a suspensão de descrença necessária para o público. Embora o roteiro apresente certas conveniências científicas para manter o ritmo, o encadeamento das descobertas mantém o público engajado até o desfecho emocionante. É uma adaptação que satisfaz tanto os entusiastas de hard sci-fi quanto os espectadores que buscam uma jornada inspiradora sobre amizade e engenhosidade. Vale muito o ingresso e a indicação etária é para maiores de 14 anos.
Outra estreia desta semana nos cinemas é Uma Segunda Chance. Dirigido por Vanessa Caswill, o filme se apresenta como uma proposta de romance contemporâneo que tenta elevar o gênero por meio de uma estética visual refinada. O roteiro, baseado na obra de Jennifer E. Smith, utiliza o conceito de “estatística e destino” para narrar o encontro fortuito entre Hadley (Haley Lu Richardson) e Oliver (Ben Hardy) em um voo para Londres. O texto se destaca por uma narrativa que foge do excesso de melancolia, preferindo uma abordagem lúdica sobre as probabilidades matemáticas do amor. Ao colocar os protagonistas em um ambiente confinado e de transição, o enredo tece comentários sutis sobre o medo do compromisso e a finitude das conexões humanas. No entanto, o roteiro apresenta conveniências narrativas excessivas, onde o acaso muitas vezes ultrapassa o limite da suspensão de descrença, tornando algumas situações artificiais. No enredo, após se perderem na alfândega, Hadley inicia uma busca frenética por Oliver em uma Londres vibrante, enfrentando dilemas familiares que servem como pano de fundo para a jornada romântica. A direção de Vanessa Caswill opta por uma paleta de cores saturada e uma composição de quadros que remete ao realismo fantástico, fugindo da estética genérica de comédias românticas televisivas. Caswill demonstra maturidade ao utilizar um narrador onisciente para guiar o espectador, embora esse recurso, em certos momentos, interrompa o fluxo emocional da trama ao explicar demais o que já está subentendido nas imagens. A trilha sonora é usada de forma inteligente para preencher os silêncios, mas a montagem ocasionalmente apressa conflitos familiares que mereciam maior densidade dramática. O elenco é o ponto alto da obra, sustentando uma química orgânica entre Haley Lu Richardson e Ben Hardy. Enquanto Richardson entrega uma performance naturalista e carismática, Hardy brilha ao compor um Oliver que esconde suas inseguranças atrás de fatos e números. Contudo, os personagens secundários são subutilizados, servindo apenas como ferramentas para impulsionar o casal principal, o que esvazia o universo ao redor dos protagonistas. Essa dinâmica central é o que mantém o longa interessante, elevando o material acima de outras produções similares, apesar de suas fragilidades estruturais no terceiro ato. Embora o ritmo seja ágil, a resolução de certos arcos dramáticos ocorre de forma apressada e previsível, sacrificando o desenvolvimento de temas mais profundos em favor de um final reconfortante. É uma adaptação que satisfaz o público que busca um entretenimento leve e visualmente belo, mas que pode frustrar aqueles que esperam uma desconstrução mais realista do gênero. Vale o ingresso pela experiência estética e pelas atuações. A indicação etária é para maiores de 16 anos.
A última estreia desta semana nos cinemas em Nova Friburgo é O Velho Fusca. Dirigido e estrelado por Emiliano Ruschel, esse filme nacional aposta na nostalgia para conquistar o público. A obra compreende seu papel como uma fábula urbana, equilibrando a leveza da comédia com a sensibilidade de uma jornada de amadurecimento. O roteiro se destaca por utilizar um ícone da cultura automobilística nacional não apenas como cenário, mas como o catalisador que une duas gerações distintas: o jovem Jeff (Caio Manhente) e o recluso vovô Amandi (Tonico Pereira). Ao colocar Jeff em uma jornada de restauro do automóvel, o texto consegue tecer comentários sobre a importância do legado e a conexão com as raízes, embora o foco permaneça na relação de mentoria entre neto e avô. No entanto, o roteiro flerta com clichês de gênero que tornam certas viradas previsíveis, especialmente no desenvolvimento do arco romântico e nos conflitos familiares secundários, que carecem de uma resolução mais orgânica. No enredo, Jeff descobre o carro abandonado na garagem do avô e, ao decidir consertá-lo, acaba “consertando” também os laços rompidos da família. A direção de Emiliano Ruschel opta por uma estética calorosa, com uma fotografia que valoriza tons terrosos e luzes naturais, evocando uma sensação de acolhimento. Ruschel demonstra maturidade ao dar espaço para o silêncio e para o trabalho manual do restauro, transformando a oficina em um personagem vivo. Por outro lado, a direção peca pelo excesso de sentimentalismo, utilizando uma trilha sonora que, em alguns momentos, tenta ditar a emoção do espectador de forma um tanto impositiva. O elenco sustenta a narrativa com destaque absoluto para a química entre Caio Manhente e Tonico Pereira. Enquanto Manhente entrega uma performance equilibrada e carismática, Pereira brilha com sua habitual naturalidade, compondo um avô ranzinza que desarma o público com pequenas doses de vulnerabilidade. O elenco de apoio, que conta com nomes como Cleo Pires e Giovanna Chaves, cumpre seu papel, mas sofre com diálogos que, por vezes, soam didáticos demais, expondo temas que a encenação já havia deixado claros. Embora a trama apresente certas facilidades narrativas e um ritmo que oscila no segundo ato, o filme entrega uma experiência honesta e tocante. É uma obra que satisfaz o público que busca uma história de reconexão familiar e valoriza as produções nacionais que fogem do eixo puramente caricato. Vale o ingresso pela atuação de Tonico Pereira e pela mensagem de preservação da memória. A indicação etária é para maiores de 12 anos.
A dica desta semana para assistir em casa vai para Emergência Radioativa. Essa é uma série que eleva o padrão das produções nacionais ao tratar o acidente do Césio-137 com o rigor técnico de um suspense documental e meticuloso. É uma reconstrução histórica impecável, que foge do melodrama comum para focar na corrida científica e política contra a contaminação. O elenco, liderado por Johnny Massaro, entrega atuações contidas que humanizam a tragédia sem explorá-la visualmente de forma gratuita. A direção de Fernando Coimbra utiliza uma atmosfera de tensão constante, comparável a produções como Chernobyl, para expor as falhas sistêmicas e o heroísmo de profissionais anônimos. É uma reflexão poderosa sobre negligência e memória coletiva que prende o espectador pelo intelecto. A minissérie de cinco episódios está disponível na Netflix.









