Filmes da semana de 26/03 a 01/04

26/03/2026 12:36:07
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Estreia esta semana nos cinemas em Nova Friburgo Velhos Bandidos. Essa é a nova incursão de Claudio Torres no cinema de gênero que subverte as expectativas do tradicional filme de assalto. A obra se consolida como uma comédia de ação ácida e ritmada, que utiliza a maturidade de seus protagonistas não como uma limitação, mas como o motor de uma narrativa sobre irrelevância e audácia. O roteiro se destaca por abraçar o arquétipo do “último grande golpe”, injetando uma dose de cinismo tipicamente carioca ao colocar um grupo de veteranos do crime planejando um assalto ambicioso a um banco. A direção de Claudio Torres opta por uma estética que reverencia os clássicos do gênero heist dos anos 70, mas com uma montagem contemporânea e ágil. Torres demonstra segurança ao transitar entre o humor de situação e sequências de tensão genuína, utilizando a arquitetura urbana e os interiores claustrofóbicos para acentuar o contraste entre o planejamento meticuloso dos veteranos e a impulsividade da nova geração de criminosos, representada pelos personagens de Bruna Marquezine e Vladimir Brichta. A cinematografia explora planos médios que valorizam o jogo cênico entre o elenco, permitindo que o carisma dos veteranos dite o tempo da narrativa. O coração do longa reside na performance da dupla central. Fernanda Montenegro entrega uma composição que equilibra a fragilidade aparente com uma frieza estratégica fascinante, enquanto Ary Fontoura oferece um contraponto cômico orgânico, fugindo da caricatura. Essa dinâmica eleva o filme acima de uma simples comédia de erros, transformando-o em um comentário perspicaz sobre a invisibilidade do idoso na sociedade moderna e a persistência da ambição humana. O uso de efeitos práticos nas sequências de ação confere uma organicidade bem-vinda, mantendo a suspensão de descrença mesmo nos momentos de maior absurdo narrativo. Embora o roteiro flerte com algumas soluções convencionais no terceiro ato, o encadeamento das reviravoltas e a química do elenco garantem o engajamento do público até o desfecho irônico. É uma produção que satisfaz tanto os entusiastas de roteiros bem amarrados quanto os espectadores que buscam um entretenimento inteligente com DNA brasileiro. Vale o ingresso pela oportunidade rara de ver ícones da nossa dramaturgia em papéis fisicamente exigentes e moralmente ambíguos. A indicação etária é para maiores de 14 anos.

Outra estreia desta semana nos cinemas é Vingadora. Adrian Grunberg reafirma sua predileção por narrativas de sobrevivência bruta, ainda que o resultado final flerte perigosamente com o genérico. Diferente de sua colaboração anterior em Rambo: Até o Fim, aqui o diretor tenta emular o subgênero “ex-militar em busca de resgate”, mas entrega um roteiro que carece de frescor. A trama acompanha Nikki, vivida por Milla Jovovich, uma veterana de guerra que precisa descer ao submundo do crime para resgatar sua filha sequestrada, uma premissa que o texto utiliza mais como desculpa para sequências de ação do que qualquer desenvolvimento real de personagem. A direção de Grunberg opta por uma estética funcional, mas previsível. Embora o cineasta demonstre competência ao coreografar os combates, aproveitando a agilidade física de Jovovich, que já é uma veterana do gênero, a montagem por vezes sacrifica a clareza em favor de um ritmo artificialmente frenético. A produção utiliza tons frios e ambientes urbanos opressores para reforçar o isolamento da protagonista, mas falha em estabelecer uma assinatura visual distinta ou uma tensão que transcenda o lugar-comum, resultando em uma execução que, embora correta, soa meramente protocolar. O elenco é sustentado quase inteiramente pelo esforço de Milla Jovovich, que entrega a intensidade física necessária, mas é prejudicada por diálogos expositivos e clichês que pouco desafiam sua capacidade dramática. Matthew Modine surge em um papel que parece subutilizado, funcionando mais como um dispositivo de roteiro do que como uma figura com camadas próprias. Essa carência de profundidade nos coadjuvantes é um dos pontos fracos do longa, tornando a jornada de Nikki uma sucessão de obstáculos descartáveis em vez de um embate com consequências emocionais duradouras. Ainda que o uso de efeitos práticos nas cenas de perseguição garanta uma dose de realismo, o roteiro apresenta conveniências científicas e táticas que testam a suspensão de descrença do público mais exigente. É uma produção que satisfaz quem busca um entretenimento de ação direto e sem muitas ramificações, mas que deixa a desejar para o espectador que espera a inventividade de outras obras contemporâneas do gênero. Vale o ingresso pela performance dedicada de Jovovich em seu retorno à ação e a indicação etária é para maiores de 16 anos.

A última estreia desta semana nos cinemas em Nova Friburgo é Eles Vão Te Matar. Se você gosta de terror, esse filme vai te atropelar nos primeiros minutos. O diretor russo Kirill Sokolov traz para as telas a mesma energia hiperativa e violenta que o colocou no mapa com Sem Reservas, transformando uma premissa de “sobrevivência em comunidade fechada” em um espetáculo de gore cartunesco e humor ácido. Aqui, o roteiro não perde tempo com sutilezas, ele joga o espectador em uma armadilha tecnológica onde a elite descobre, da pior forma, que sua segurança digital é de papel. Sokolov dirige como se estivesse operando uma metralhadora de referências. A estética é saturada, vibrante, quase solar, o que torna a brutalidade física ainda mais desconfortável. Ele foge do óbvio ao usar ângulos de câmera impossíveis e uma montagem que dita um ritmo de videoclipe psicótico. No entanto, essa obsessão pelo impacto visual cobra seu preço. Em vários momentos, o filme sacrifica a humanidade dos personagens em favor de uma execução criativa. As vítimas viram meros adereços de cena, o que gera um distanciamento emocional; você admira a técnica da morte, mas não lamenta por quem morre. A fotografia abusa das cores primárias para criar uma claustrofobia estilizada. O longa flerta perigosamente com diretores como Sam Raimi, faltando-lhe, em certos atos, uma identidade visual que não dependa tanto de seus ídolos. O elenco entrega uma performance física exaustiva, mas luta contra um roteiro que se sustenta em conveniências narrativas frágeis e reviravoltas que, no terceiro ato, beiram o absurdo gratuito. A suspensão de descrença aqui não é opcional, é obrigatória para não abandonar a trama no meio do caminho. Para quem busca o horror técnico e visceral, o trabalho de maquiagem e efeitos práticos é um prato cheio. Eles Vão Te Matar é um soco no estômago de quem procura camadas psicológicas profundas, entregando em troca uma jornada sensorial de adrenalina pura. É cinema de gênero levado ao limite da histeria. Vale o ingresso e a indicação etária para maiores de 18 anos.

A dica desta semana para assistir em casa vai para Peaky Blinders: O Homem Imortal. Chega ao fim a saga de Thomas Shelby transpondo a névoa de Birmingham para a escala épica da Segunda Guerra Mundial. O roteiro de Steven Knight entrega uma conclusão visceral, priorizando o impacto tátil de efeitos práticos em detrimento do CGI genérico nas sequências de combate. A direção utiliza planos abertos e uma paleta metálica para reforçar o isolamento psicológico do protagonista, interpretado por um Cillian Murphy terminal e contido. Embora flerte com o fan service em núcleos secundários, a obra sustenta a tensão entre o misticismo cigano e o realismo bruto do conflito. É uma resolução técnica impecável para um dos anti-heróis mais complexos da década. Disponível na Netflix. 

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