UMA AMA DE LEITE DA COLÔNIA DE NOVA FRIBURGO PARA UMA PRINCESA NA CORTE

23/03/2026 19:33:14
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O óleo sobre tela de autoria do pintor italiano Domenico Failutti, intitulado “Imperatriz Leopoldina com seus Filhos” é uma obra de grande beleza e de fina sensibilidade, transmitindo muito carinho e intensa ternura. O quadro, que se encontra no Museu do Ipiranga, na cidade de São Paulo, retrata a ‘Imperatriz Leopoldina’ ladeada pelas quatro filhas, tendo em seu regaço, ainda bebê, o futuro Imperador D. Pedro II.

Do consórcio de D. Leopoldina de Habsburgo com o Imperador D. Pedro I, nasceram sete filhos: D. Maria da Glória (que viria a ser D. Maria II, Rainha de Portugal); D. Miguel e D. João Carlos (ambos mortos com menos de um ano; D. Januária Maria (que se tornaria, por casamento, Condessa d’ Aquila); D. Paula Mariana (que morreria aos dez anos, vítima de uma inflamação no fígado); D. Francisca Carolina (mais tarde Princesa de Joinville, por casamento) ; D. Pedro de Alcântara (futuro d. Pedro II, soberano do Brasil). Com uma prole tão numerosa, D. Leopoldina, no desempenho de suas atribuições maternas, tinha de se valer da ajuda de amas de leite.    

No afã de conseguir a ama ideal, foi enviada correspondência à Vila de Nova Friburgo, para procurar entre as colonas suíças, duas mulheres que reunissem as qualidades exigidas para o exercício de tal encargo. Não sendo encontradas “entre as suíças, aquelas duas mulheres, poderá examinar então, se acaso as há entre as alemãs, ultimamente, aí chegadas. ”                    

A carta solicitava que Dr. João Bazet atestasse que as mesmas se encontravam em perfeitas condições de saúde. Dr. Bazet não só elaborou os atestados médicos, como acompanhou duas amas até a Corte, no Rio de Janeiro (as referidas informações se encontram nas páginas 85, 93 e 97- Volume I, Série 7-Documentos e Cartas da Colônia-1820/1824 – Departamento de Cultura da Prefeitura de Nova Friburgo). Consta que a Corte recorria sempre às colonas da Vila de Nova Friburgo, quando necessitava de serviços para obra tão nobre.

Assim, embora decorrido mais de um século e meio, nos dias atuais, temos, em nossa cidade, descendentes de uma daquelas mulheres abnegadas. São os filhos e netos da saudosa senhora Ângela Bunte Azambuja, trineta de Marie Josephine Gavillet Thomaz que foi a escolhida para ser ama de leite da Princesa Francisca Carolina. 

D. Ângela (viúva de Dr. Rudá Azambuja, um dos fundadores da Academia Friburguense de Letras) relatava, com riqueza de detalhes, a vida de sua antepassada.

Marie Josephine nasceu na Suíça, em 1801, em Bionneus, Cantão de Friburgo, sendo seus pais Claudine e Pierre Gavillet. Veio para o Brasil, com destino ao Morro Queimado, com os primeiros suíços, em 1819, acompanhada de seus pais, irmãos e de outros familiares. Seus pais morreram a bordo do navio, vitimados pela febre tifoide que grassava entre passageiros e tripulantes. Marie Josephine ficou em companhia de uma tia, bem como seus  irmãos, e casou -se com o colono suíço Jacques Jacob Antoine Thomaz. 

Quando foi para a Corte, para o Paço de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, por volta de 1823, para desempenhar a sua função de ama de leite da Princesa Francisca Carolina, estava grávida. Lá nasceu a sua filha Elisa. O marido de Marie Josephine se engajou na Guarda Imperial (Dragões da Independência) e chegou ao posto de Major.

Ao retornarem, alguns anos depois, dentre vários objetos trazidos como recordação da Corte, ela guardava, com muito carinho um par de sapatinhos de cetim da princesinha, e ele conservava o uniforme e a espada da Guarda Imperial.

A dedicada ama mal poderia imaginar que aquela criança, que ela amamentara com tanto amor, se casaria com o Príncipe de Joinville, terceiro filho de Luís Filipe, Rei de França(1830-1848) e de sua esposa, Dona Maria Amélia de Bourbon. 

O casal Marie Josephine-Jacques Thomaz, além da filha Elisa, ainda teria outros filhos. Uma das netas, Augusta contraiu núpcias com o comerciante italiano Mangiorino Massa (residindo em nossa praça principal, onde hoje se encontra o “Edifício Maria Augusta”), nascendo desta união Irene e Ítala Massa.                                          

Professoras renomadas e tradicionais, gozavam de muito prestígio em nossa sociedade, e eram depositárias dos pertences de seus bisavós, Marie Josephine e Jacques Thomaz. 

 Assim, de geração em geração, chegamos até a saudosa trineta D. Ângela Bunte Azambuja que, por ter uma prole numerosa, terá contada, por muitos anos, aos seus descendentes, a história de sua antepassada, a dedicada ama Marie Josephine que faleceu aos 80 anos de idade, em 25 de abril de 1881. Está sepultada no Cemitério do Santíssimo Sacramento, em nossa cidade.

AQUI JAZ
MARIA JOZEPHINA GAVILHET THOMAZ
NATURAL DA SUISSA
FALECIDA A 25 D’ABRIL DE 1881
COM 80 ANOS DE IDADE
AMOR FILIAL

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