Delator acusa Cláudio Castro de receber propina; Governador nega

04/03/2021 09:15:40
Compartilhar
Cláudio Castro filmado no elevador indo para a Servlog

Por Marcelo Bruzzi e Marcelo Gomes, GloboNews

A GloboNews teve acesso a vídeos de um encontro em que, segundo um delator, o governador em exercício, Claudio Castro, teria recebido R$ 100 mil em propina de um empresário investigado por corrupção. Castro nega que tenha recebido o valor e processa o delator.

A reunião foi em 29 de julho de 2019, quando Castro ainda era vice-governador. Ele esteve com Flavio Chadud, dono da Servlog, empresa que tinha contratos milionários com a Fundação Leão XIII.

Na época, a Leão XIII era subordinada à vice-governadoria do Estado, ou seja, a Claudio Castro.

A fundação é a responsável por políticas de assistência social do governo do Estado, que atende a população de baixa renda e em situação de rua.

Castro e Chadud foram filmados por câmeras de segurança do shopping, na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio, onde fica a Servlog.

No dia seguinte ao encontro, Flavio Chadud foi preso na primeira fase da Operação Catarata, que investigou justamente irregularidades em contratos da Fundação Leão XIII.

O delator do caso é Bruno Selem, que foi funcionário na Servlog. Ele contou ao Ministério Público que naquele encontro, Claudio Castro recebeu R$ 100 mil em espécie, das mãos de Flavio Chadud, na sede da Servlog.

DEPOIMENTO
A GloboNews também teve acesso ao vídeo do depoimento de Selem. Mas imagens, o delator lê o seu próprio depoimento escrito.

“(…) No dia 29 do 7 de 2019, véspera da prisão do depoente e de Flavio Chadud, Claudio Castro foi até o shopping Downtown e recebeu das mãos de Chadud o pagamento de propina. O depoente estima que Claudio Castro tenha recebido cerca de 100 mil em espécie naquela ocasião, pois constatou que esse era o valor aproximado que faltava no cofre da empresa após a reunião de Flavio Chadud e Claudio”, disse Selem.

A investigação do Ministério Público do Rio apontou que outros políticos receberam propina da empresa Servlog.

Na segunda fase da Operação Catarata, realizada em setembro do ano passado, a ex-deputada federal Cristiane Brasil, e o então secretário estadual de Educação, Pedro Fernandes, chegaram a ser presos, acusados de desviar dinheiro público. Os dois já estão soltos, e negam todas as acusações.

Na mesma operação, Flavio Chadud foi preso pela segunda vez. Os investigadores afirmam que o esquema pode ter desviado até R$ 32 milhões.

Como Claudio Castro tem foro privilegiado, a investigação sobre ele foi desmembrada, e ficou com a Subprocuradoria-Geral de Assuntos Criminais do Ministério Público do Rio. A apuração ainda está em andamento.

Os procuradores apuram se Claudio Castro recebia propina da empresa Servlog desde quando era vereador da cidade do Rio, entre 2017 e 2018. Essas acusações também foram feitas pelo delator Bruno Selem, no depoimento.

“(…) que, na condição de vereador, Claudio Castro recebia propina do projeto Qualimóvel, executado pela Servlog no âmbito da Secretaria municipal da Pessoa com Deficiência”, contou.

Ainda de acordo com a delação de Bruno Selem, Claudio Castro continuou recebendo propina depois que assumiu o cargo de vice-governador do Estado, no início de 2019.

“Que por já ter se beneficiado de pagamento de propina pela Servlog no âmbito municipal e por ter ciência que havia projetos executados pela Servlog no âmbito estadual, notadamente na Fundação Leão XIII, Claudio Castro, na condição de vice-governador do Rio de Janeiro, puxou a fundação Leão XIII para a vice-governadoria no início de janeiro de 2019, com o objetivo de continuar o recebimento de vantagens indevidas por meio do projeto Novo Olhar da Servlog”, disse.

Entre o material analisado pelo Ministério Público na investigação contra Claudio Castro está a gravação das câmeras de segurança do shopping onde fica a Servlog.

Claudio Castro chegou ao centro comercial às 9h14 da manhã do dia 29 de julho de 2019. Segundo relatório da Polícia Civil, dois carros pretos com giroscópio param num recuo do estacionamento. O então vice-governador e dois homens desembarcam.

Claudio Castro carrega uma mochila e segue em direção ao elevador. Às 9h26 da manhã, Castro e Flavio Chadud sobem para a sede da Servlog, no segundo andar.

Cerca de uma hora depois, os dois entram novamente no elevador. Claudio Castro de despede com tapas no ombro de Chadud.

Ao ler o próprio depoimento, o delator Bruno Selem diz que não viu a entrega do dinheiro a Claudio Castro, mas que ouviu do próprio Flavio Chadud que isso aconteceu, quando os dois ainda estavam presos.

“Que também tem certeza da entrega da propina para Claudio Castro no dia 29/07/2019, pois o próprio Flavio Chadud disse ao depoente quando estavam presos na cela em Benfica”.

O QUE DIZEM OS CITADOS
A GloboNews procurou governador em exercício, Claudio Castro, e perguntou se ele gostaria de gravar entrevista sobre o teor da reportagem. Claudio Castro se manifestou por meio de nota, em que informou estar processando o delator Bruno Selem em diversas instâncias por calúnia e denunciação caluniosa. Claudio Castro disse ainda que Bruno Selem tem usado de artifícios para se esquivar da Justiça, inclusive faltando a depoimento na Polícia Civil.

A advogada Tathiana Costa, que defende o delator Bruno Selem, disse que reitera seu compromisso em colaborar com todas as autoridades, “como tem feito na qualidade de colaborador da Justiça”. A defesa afirmou que todos os esclarecimentos e provas foram entregues às autoridades competentes. E que não pode se manifestar perante autoridades que não aderirem ao acordo de colaboração de Bruno Selem.

O advogado Marcio Delambert, que defende Flávio Chadud, disse o empresário nega os fatos e que vai responder em juízo “às acusações feitas com base nas palavras de um delator que precisa ler um texto, previamente elaborado, para narrar fatos que teria participado”.

Compartilhar