Estreia esta semana nos cinemas em Nova Friburgo, Moana. Dirigido por Thomas Kail, conhecido por seu aclamado trabalho em musicais teatrais como Hamilton, o longa traz para o formato live-action uma das propriedades intelectuais mais lucrativas e queridas da Disney recente. O resultado é um filme tecnicamente impressionante, mas que opera dentro de uma clara zona de conforto, revelando-se uma aposta extremamente segura do estúdio, que escolhe mais uma vez não correr riscos. Em vez de expandir a mitologia da Polinésia ou aprofundar os mistérios do povo de Motunui, a produção opta por seguir, quase linha por linha, o caminho pavimentado pela animação de 2016. Essa fidelidade excessiva agrada aos fãs mais nostálgicos mas impõe um limite à originalidade da obra, transformando o que poderia ser uma releitura em uma reprodução burocrática. O grande trunfo da produção reside nas performances de seu elenco feminino. A estreante Catherine Laga’aia entrega uma Moana brilhante, equilibrando com maturidade a imponência de uma futura líder e a vulnerabilidade teimosa de uma adolescente. Suas interações com Rena Owen, que interpreta a Gramma Tala, dão ao filme seus momentos mais genuínos e emocionalmente viscerais. É nessas sequências, e nos grandes momentos musicais que a bagagem de Kail se destaca, orquestrando coreografias e movimentos de câmera que ganham uma energia humana contagiante. A narrativa começa a apresentar limitações, no entanto, quando o filme se afasta do calor humano e mergulha no oceano de efeitos visuais e telas verdes exigidos por um blockbuster desse porte. Em muitos momentos o diretor parece visivelmente perdido na transição para o cinema de grande orçamento dominado por computação gráfica, resultando em uma atmosfera artificial em várias sequências marítimas que quebra a imersão e a proposta de conexão com a natureza selvagem. O fotorrealismo dos animais gerou o incômodo efeito do vale da estranheza, com o frango Heihei sendo uma figura um tanto bizarra de ansiedade existencial, e o caranguejo gigante Tamatoa, perdendo o charme brega em troca de um visual digital considerado feio e sem alma. Além disso, a atuação de Dwayne Johnson como Maui está no piloto automático e falha em replicar o carisma vibrante que ele mesmo imprimiu na dublagem original. No fim das contas, Moana se consolida como um entretenimento familiar competente, colorido e visualmente vistoso, impulsionado pela força inabalável de sua trilha sonora e pelo talento de sua protagonista. Mesmo sem justificar artisticamente a sua própria existência frente à obra original, o filme cumpre seu papel comercial como um produto de mercado de alto nível. É uma experiência cinematográfica agradável para se ver na tela grande, embora a animação original continue sendo o destino definitivo para quem busca a verdadeira alma dessa história. Vale o ingresso e a classificação indicativa é para maiores de 10 anos.
Outra estreia desta semana nos cinemas é A Morte do Demônio: Em Chamas. O lendário Livro dos Mortos, o Necronomicon, deixa de lado as tradicionais cabanas isoladas na floresta para se infiltrar no cenário cinzento e opressor de um conjunto habitacional degradado na periferia de Paris. O resultado é um filme visceral, violento e politicamente carregado, que consegue injetar sangue novo em uma das franquias mais icônicas do terror, embora vacile na reta final ao tentar conciliar o horror puramente caótico com as demandas de um roteiro de sobrevivência mais convencional. O maior mérito do filme está no ritmo implacável e na construção de uma atmosfera de desespero absoluto. A narrativa acompanha um grupo de jovens moradores que se vê encurralado dentro do próprio prédio comunitário quando uma infestação de forças demoníacas e possessões brutais começa a se espalhar pelos andares. A produção utiliza a decadência urbana, os corredores estreitos e a falta de saída como um amplificador de pânico. A violência aqui é gráfica, crua e incômoda, homenageando o espírito gore da série clássica, mas adaptando-a a um contexto de realismo social onde o terror sobrenatural se mistura à negligência do próprio cotidiano daquelas pessoas. Visualmente, a obra impressiona pela agressividade de suas imagens. A fotografia abusa de tons frios, sombras projetadas em concreto e uma iluminação estroboscópica que transforma o edifício em um labirinto infernal. O desenho de som é agressivo e sufocante, misturando os gritos distorcidos dos possuídos com a própria acústica metálica e ecoante do prédio, mantendo o espectador em constante estado de choque. No elenco, as atuações entregam a urgência e o desgaste físico exigidos pelo roteiro, com destaque para a entrega física dos protagonistas, que transmitem com precisão o esgotamento de quem está lutando por cada segundo de vida contra uma ameaça implacável. As limitações da engrenagem, contudo, tornam-se evidentes quando o filme se aproxima do clímax. À medida que o cerco se fecha e os sobreviventes diminuem, a metáfora social sobre o abandono das periferias e o preconceito institucional perde espaço para resoluções de ação aceleradas e clichês de sobrevivência urbana. Algumas escolhas dos personagens tornam-se questionáveis apenas para esticar a narrativa, e as regras do próprio universo sobrenatural parecem se flexibilizar de forma conveniente para justificar o desfecho de certos arquétipos. Além disso, uma parcela da crítica especializada apontou que o excesso de cortes rápidos nas cenas de combate corporal por vezes prejudica a clareza geográfica do espaço, tornando a ação confusa e diminuindo o impacto de algumas mortes que deveriam ser mais impactantes. Ainda assim, A Morte do Demônio: Em Chamas se consolida como uma adição brutal e legítima à saga. Mesmo sem a leveza satírica de outras iterações da franquia, o filme prova que o horror de cabana pode se transformar em um pesadelo urbano assustadoramente atual. É uma experiência cinematográfica barulhenta, sangrenta e cheia de adrenalina que honra os fãs do gênero e garante um ótimo proveito para os fortes de estômago. Vale o ingresso, e a classificação indicativa é para maiores de 18 anos.
A última estreia desta semana nos cinemas em Nova Friburgo é Os Emergentes. Essa comédia nacional mergulha de cabeça nos clichês, nas excentricidades e nas contradições do alpinismo social, acompanhando uma família de classe média que, após enriquecer da noite para o dia, se muda para uma mansão na Barra da Tijuca. O filme entrega um entretenimento leve e repleto de piadas rápidas, alcançando o objetivo de fazer o público rir da ostentação alheia, muito embora esbarre na superficialidade ao não aprofundar a crítica aos valores dessa nova realidade. O ponto alto do filme se concentra na química e no tempo cômico de seu elenco principal. As gafes de etiqueta, os excessos na decoração e os diálogos repletos de gírias corporativas ou termos em inglês mal pronunciados geram as melhores situações da história. O ritmo das piadas é dinâmico, e a produção aproveita muito bem o cenário carioca para criar piadas que geram identificação imediata. Esteticamente, o projeto aposta em uma identidade visual espalhafatosa para espelhar a mente de seus personagens. A direção de arte exagera propositalmente nas cores vibrantes, no dourado e nos figurinos de marcas de luxo ostensivas, transformando o cenário em uma piada visual por si só. Por outro lado, o roteiro mostra sinais de desgaste na transição para o desfecho. Conforme os conflitos familiares começam a exigir uma resolução, o texto abandona a ironia ácida para se apoiar em lições de moral açucaradas e previsíveis sobre como “o dinheiro não compra a felicidade”. O motor do filme está no entrosamento e no carisma do trio de protagonistas. Katiuscia Canoro assume as rédeas da narrativa com uma atuação impagável no papel da matriarca deslumbrada. Ao seu lado, Luis Lobianco entrega uma ótima contrapartida como o marido que, apesar do dinheiro novo, se recusa a abandonar seus velhos hábitos de subúrbio, gerando um contraste com a pose da esposa. Fechando o trio principal, Polly Marinho interpreta a filha do casal, que atua como a voz da razão e o ponto de equilíbrio da casa. O time de apoio também entrega ótimas participações. Evelyn Castro brilha como a vizinha fofoqueira e esnobe da Barra da Tijuca, servindo como o espelho perfeito do preconceito da velha elite contra os novos ricos. Mesmo sem trazer grandes inovações para o gênero da comédia nacional, Os Emergentes se estabelece como uma opção divertida e descompromissada para o fim de semana. O filme extrai risadas sinceras ao brincar com o ridículo da nossa própria sociedade e entrega exatamente o espetáculo leve que promete. Vale o ingresso para e a classificação indicativa é de 12 anos.
A dica para assistir em casa desta semana vai para Rooster. Comédia dramática da HBO criada por Bill Lawrence e Matt Tarses, a série com 10 episódios acompanha Greg (Steve Carell), um autor de romances policiais que se torna escritor residente em uma faculdade de elite para apoiar a filha professora após o divórcio. O grande mérito da série está em equilibrar um humor inteligente com momentos de profunda sensibilidade paternal, satirizando os egos inflados e o politicamente correto do ambiente acadêmico. A atuação de Carell é brilhante, entregando uma melancolia carismática impecável em perfeita sintonia com a fantástica Charly Clive. Embora flerte com caminhos previsíveis na metade da temporada, a produção diverte com diálogos rápidos e personagens cativantes. É uma excelente surpresa que garante diversão de alta qualidade.








