Estreia esta semana nos cinemas em Nova Friburgo Supergirl. O novo longa do diretor Craig Gillespie, crava os pés no recém-nascido Universo DC com a mesma energia crua e irreverente que o cineasta já havia injetado em produções como Eu, Tonya e Cruella. Adaptando o aclamado arco dos quadrinhos assinado por Tom King, a produção consegue o feito raro de descolar o gênero de super-heróis da fórmula higienizada da última década. Em vez disso, entrega uma ópera espacial suja, tátil e de uma maturidade emocional surpreendente, equilibrando perfeitamente a escala cósmica com uma jornada íntima de dor e vingança. O maior acerto do filme está na desconstrução imediata do mito da “Garota de Aço”. O roteiro afiado de Ana Nogueira faz um contraste entre o Superman e Kara Zor-El. Enquanto o primo cresceu em uma fazenda acolhedora no Kansas, Kara testemunhou o fim do próprio mundo e a morte de todos ao seu redor antes de chegar à Terra. Essa bagagem trágica dita o tom da narrativa. Trata-se de um road movie espacial árido e melancólico, onde a ficção científica ganha contornos de um faroeste implacável nos confins do universo, distante das tradicionais amarras geográficas de Metrópolis ou Gotham. O coração pulsante desse deserto cósmico reside no desempenho formidável do elenco. Milly Alcock entrega uma atuação magnética no papel principal. Distanciando-se totalmente de qualquer idealização intocável de super-herói, sua Kara Zor-El é uma jovem calejada, áspera, movida por um cansaço existencial profundo e por um cinismo que esconde suas feridas. Alcock domina a tela, equilibrando a fúria contida de uma sobrevivente com momentos de vulnerabilidade poética. A dinâmica que ela estabelece com a jovem Eve Ridley, que interpreta a determinada Ruthye Marye Knoll, uma garota em busca de justiça após o assassinato do pai, evoca o clássico Bravura Indômita, funcionando como a verdadeira âncora moral da jornada. Do lado antagonista, Matthias Schoenaerts entrega um trabalho impecável na pele do pirata espacial Krem das Colinas Amarelas. Schoenaerts evita o maniqueísmo caricato, construindo um vilão cuja crueldade parece naturalizada pelo ambiente hostil em que vive, o que o torna ainda mais ameaçador. Outro destaque absoluto é Jason Momoa, que ressurge no estúdio totalmente descompromissado da sua antiga bagagem heroica para dar vida ao mercenário alienígena Lobo. Momoa rouba cada cena com uma energia caótica e brutal, servindo como o alívio cômico perfeito para o peso dramático da trama. Em participações menores, mas estruturalmente cruciais, David Krumholtz e Emily Beecham trazem um calor melancólico tocante através de flashbacks como Zor-El e Alura In-Ze, os pais biológicos de Kara. Visualmente, Craig Gillespie recusa a artificialidade das telas verdes saturadas e abraça texturas reais, poeira e efeitos práticos. A cinematografia de Rob Hardy constrói paisagens alienígenas que parecem imensas e desoladoras, realçando a solidão das protagonistas. Supergirl prova que o cinema de orçamento milionário ainda pode ter autoralidade. Longe de ser apenas uma engrenagem de transição em um universo compartilhado, o filme se sustenta sozinho como um estudo belíssimo sobre o luto, a perda da inocência e a busca por um propósito após o fim de tudo. Vale cada centavo do ingresso, e a classificação indicativa é recomendada para maiores de 14 anos.
A outra estreia desta semana nos cinemas em Nova Friburgo é Segredo Obscuro. Esse filme é um exercício de tensão, que se afasta dos grandes espetáculos de ação para se concentrar em uma investigação que, embora comece com contornos de drama familiar, rapidamente se transmuta em um pesadelo sobre as lacunas da memória e os traumas que guardamos em silêncio. A narrativa aposta em uma montagem fragmentada, exigindo que o espectador seja um cúmplice ativo desse quebra-cabeça existencial. No cerne dessa teia estão as interpretações que ancoram a credibilidade da obra. Imogen Poots entrega uma performance visceral, retratando sua protagonista com uma fragilidade que oscila perfeitamente entre a confusão mental e a determinação implacável. Ao lado dela, Nicholas Hoult oferece uma atuação contida e enigmática, servindo como o espelho para a paranoia da trama. É um jogo de gato e rato emocional onde não sabemos se devemos confiar na sua doçura ou temer o que pode estar escondido sob essa camada de normalidade. Contudo, o roteiro, embora pretensioso em seu desejo de subverter expectativas, acaba tropeçando em sua própria ambição. Há um nítido descompasso no segundo ato, onde a narrativa tenta justificar algumas reviravoltas através de explicações expositivas desnecessárias. O famoso “dizer em vez de mostrar” que subestima a inteligência da audiência. Essa necessidade de amarrar todas as pontas soltas de forma abrupta acaba por drenar parte do impacto sombrio que o primeiro ato construiu com tanto cuidado. Além disso, a insistência em filtros de cor saturados para sinalizar o que é passado ou presente acaba se tornando um recurso visual cansativo, quase caricato. A direção de arte acerta em cheio na criação da ambientação. A trilha sonora, composta por notas graves e dissonantes, funciona como um personagem à parte, elevando o nível de ansiedade a cada nova revelação. Visualmente, a exploração dos espaços vazios dentro da casa onde a trama se desenrola é um primor de linguagem cinematográfica, transformando cômodos comuns em cenários que transmitem a sensação de um cárcere privado. Em última análise, o filme se coloca em uma posição difícil. Quer ser um thriller de autor, mas não consegue se desvencilhar totalmente da necessidade de fórmulas convencionais do gênero para segurar o interesse do grande público. Ainda que vacile no ritmo e na construção da sua resolução, o longa compensa através de uma atmosfera sufocante e atuações de peso que mantêm o espectador preso até os minutos finais. É uma experiência recomendada para quem aprecia um suspense que prefere o desconforto psicológico ao susto gratuito. Vale o ingresso e a classificação indicativa é para maiores de 16 anos.
A dica desta semana para assistir em casa vai para Cabo do Medo. Essa minissérie recém-chegada ao catálogo da Apple TV+ é estrelada por Javier Bardem e a produção adapta mais uma vez a clássica e perturbadora história de vingança originalmente escrita por John D. MacDonald. A narrativa mergulha o espectador em uma teia complexa de suspense psicológico e perseguição implacável, onde a tranquilidade de uma família de advogados é estilhaçada pelo retorno de um fantasma do passado. É uma boa escolha para quem aprecia tramas dinâmicas, que desafiam os limites da moralidade e sustentam a tensão através de um jogo psicológico asfixiante.







