A única estreia desta semana nos cinemas em Nova Friburgo é Homem-Aranha: Um Novo Dia. Durante mais de uma década, a Marvel transformou cada lançamento em um acontecimento. O chamado “efeito MCU” fez do estúdio uma máquina praticamente infalível, culminando em Vingadores: Ultimato, quando parecia que o cinema de super-heróis havia atingido seu auge definitivo. O problema é que Hollywood confundiu sucesso com saturação. Vieram dezenas de séries, filmes cada vez mais dependentes de conexões entre si e um excesso de personagens que tornaram o universo compartilhado mais cansativo do que empolgante. Pela primeira vez em muitos anos, o maior desafio da Marvel não é enfrentar um vilão, mas reconquistar seu próprio público. É justamente nesse cenário que esse filme assume uma importância muito maior do que aparenta. Peter Parker sempre foi o personagem mais humano da Marvel. Enquanto deuses, bilionários e soldados aprimorados salvam o mundo, o Homem-Aranha continua sendo o garoto que precisa lidar com boletos, perdas, culpa e responsabilidade. Depois dos acontecimentos de Homem-Aranha: Sem Volta para Casa, o personagem finalmente ganha a oportunidade de recomeçar sem depender da nostalgia, dos multiversos ou das participações especiais que passaram a dominar boa parte das produções recentes do estúdio. O longa acerta ao reduzir a escala. Em vez de tentar superar o espetáculo do filme anterior, aposta em uma narrativa mais íntima, devolvendo espaço para que Peter Parker exista como protagonista, e não apenas como peça de um gigantesco quebra-cabeça do MCU. É uma decisão inteligente, porque lembra que os melhores filmes do Homem-Aranha nunca foram aqueles com as maiores explosões, mas os que compreenderam que o verdadeiro conflito do personagem sempre esteve dividido entre a vida comum e o peso de ser um herói. Isso não significa que a Marvel tenha abandonado seus velhos hábitos. O roteiro ainda carrega alguns vícios da franquia, especialmente a necessidade de plantar sementes para produções futuras e de interromper momentos dramáticos com piadas que, nem sempre, funcionam. É uma característica que já começa a soar previsível em um universo que parece ter perdido parte da confiança em contar histórias autocontidas. No elenco Tom Holland continua demonstrando por que se tornou uma das versões mais carismáticas de Peter Parker, transitando com naturalidade entre o humor característico do personagem e o peso das responsabilidades que carrega. Zendaya retorna com a presença marcante que consolidou sua personagem ao longo da franquia, enquanto Jacob Batalon preserva o carisma que sempre funcionou como alívio cômico. Entre as novidades, Jon Bernthal, vivendo o Justiceiro, traz uma energia mais sombria e violenta que contrasta de forma interessante com o idealismo do Homem-Aranha, enquanto Sadie Sink se integra ao universo da Marvel com personalidade, reforçando a sensação de renovação que o filme busca transmitir. O resultado é um elenco que consegue sustentar tanto os momentos mais intimistas quanto as grandes sequências de ação, sem deixar que o espetáculo visual ofusque o desenvolvimento de seus personagens. No fim das contas, Homem-Aranha: Um Novo Dia representa mais do que a continuação de uma das franquias mais lucrativas do cinema. É quase um teste para descobrir se ainda existe espaço para filmes de super-heróis que priorizem personagens acima de eventos, emoção acima de fan service e boas histórias acima da obrigação de expandir um universo compartilhado. Talvez essa seja exatamente a direção que a Marvel precisava seguir para voltar a empolgar um público que, pela primeira vez em muitos anos, deixou de comparecer automaticamente às salas de cinema. Vale o ingresso e a classificação indicativa é para maiores de 12 anos.
A dica desta semana para assistir em casa vai para Devoradores de Estrelas. Disponível no Prime Video, a adaptação do best-seller de Andy Weir combina ficção científica e drama humano com rara eficiência. Em vez de apostar apenas no espetáculo visual, o filme constrói sua narrativa sobre a solidão, a inteligência e a capacidade de encontrar esperança mesmo diante de uma missão praticamente impossível. O roteiro consegue equilibrar conceitos científicos complexos com uma história acessível e emocionalmente envolvente. A direção conduz a trama com ritmo seguro, enquanto Ryan Gosling entrega uma atuação convincente ao interpretar um protagonista que precisa superar seus próprios medos antes de enfrentar os desafios do espaço profundo. Os efeitos visuais impressionam sem se sobrepor à narrativa, tornando a imensidão do universo tão fascinante quanto intimidadora. Mais do que uma aventura espacial, é um filme sobre coragem, cooperação e a necessidade de acreditar que o conhecimento pode ser a maior ferramenta de sobrevivência da humanidade. Uma produção inteligente, emocionante e visualmente deslumbrante, que certamente figura entre as melhores ficções científicas dos últimos anos.






