Estreia esta semana nos cinemas em Nova Friburgo, O Bosque Selvagem, novo filme dirigido por Travis Knight, chama a atenção pelo trabalho artesanal da animação, mas encontra dificuldades para transformar sua ambição visual em uma aventura igualmente consistente. Produzido pelo estúdio Laika, conhecido por Coraline e o Mundo Secreto e Kubo e as Cordas Mágicas, o longa aposta em um universo fantástico de atmosfera sombria, no qual a imaginação é um dos principais trunfos, mas não consegue evitar alguns excessos narrativos. A história acompanha Prue McKeel, uma adolescente que parte em busca do irmão mais novo, sequestrado por um bando de corvos e levado para uma floresta misteriosa. Ao lado do amigo Curtis, ela atravessa um território povoado por animais falantes, criaturas estranhas e figuras envolvidas em disputas de poder. O que começa como uma missão de resgate se transforma em uma jornada de amadurecimento, com desafios que colocam à prova a coragem e os vínculos entre os personagens. O maior mérito da produção está no trabalho visual. A animação em stop-motion demonstra o cuidado da equipe na construção dos cenários, nas texturas e nos movimentos dos personagens. Travis Knight explora esse universo com criatividade, criando imagens que valorizam o aspecto físico e artesanal da técnica. Em uma indústria cada vez mais dominada por recursos digitais, existe algo genuinamente expressivo na maneira como o filme dá vida a suas criaturas e ambientes. O problema é que o esmero técnico nem sempre encontra correspondência no roteiro. Com cerca de duas horas e dez minutos de duração, a aventura poderia ser mais enxuta. A quantidade de personagens, conflitos e elementos fantásticos torna a narrativa por vezes dispersa, enquanto determinadas passagens demoram a avançar. Em vez de aprofundar as relações ou desenvolver melhor as motivações dos envolvidos, o filme ocasionalmente parece mais interessado em apresentar novas criaturas e ampliar seu universo. A jornada de Prue também segue caminhos relativamente conhecidos das histórias de fantasia e amadurecimento. Embora a protagonista tenha uma motivação emocional clara, a narrativa nem sempre consegue dar peso às transformações que ela atravessa. A sucessão de perigos e descobertas mantém o espetáculo em movimento, mas nem todos os acontecimentos produzem o impacto dramático esperado. É uma limitação que se torna mais evidente justamente porque a realização visual demonstra muito mais personalidade do que algumas soluções do roteiro. Ainda assim, seria injusto reduzir O Bosque Selvagem às suas falhas. A produção preserva uma atmosfera peculiar, combina fantasia e momentos de maior tensão e demonstra a disposição da Laika de investir em uma animação que não subestima completamente seu público mais jovem. O resultado, porém, fica aquém do potencial sugerido por sua concepção artística: há um mundo rico em detalhes, mas nem sempre uma história capaz de explorar toda essa riqueza. Com classificação indicativa de 14 anos, a animação merece atenção pelo trabalho artesanal e pela imaginação visual, mas pode frustrar quem espera uma narrativa tão envolvente quanto seu universo. É uma produção tecnicamente admirável, cuja ambição nem sempre se traduz em profundidade, e que acaba deixando a impressão de que uma história mais concisa e melhor desenvolvida teria produzido uma experiência cinematográfica mais marcante.
Nem sempre é preciso inventar uma história mirabolante para falar sobre amizade, perdas e recomeços. Em cartaz esta semana nos cinemas de Nova Friburgo, As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você, de Diego Freitas, parte de uma situação dolorosa para construir um drama juvenil que tenta equilibrar emoção, humor e aquela sensação de que ainda há muita coisa para viver, mesmo quando tudo parece ter perdido a graça. Gabi (Any Gabrielly) e Julia (Giulia Be) são melhores amigas, mas funcionam quase como água e vinho. Enquanto Julia encara a vida sem pensar muito nas consequências, Gabi prefere ficar na sua, longe de situações que possam tirá-la do conforto. Quando uma tragédia interrompe a amizade das duas, Gabi recebe dez cartas deixadas pela amiga, cada uma com uma missão que a obriga a experimentar coisas que normalmente evitaria. O problema é que sair da zona de conforto é bem mais fácil quando isso acontece no discurso dos outros. A proposta tem potencial e toca em questões importantes para o público jovem, mas o filme nem sempre sabe o que fazer com elas. Em alguns momentos, a história parece acreditar que basta colocar a protagonista diante de novos desafios para que a transformação aconteça naturalmente. O resultado é uma sucessão de situações que alternam momentos genuínos de emoção com passagens previsíveis, diálogos explicativos e algumas doses de sentimentalismo que poderiam ser mais bem dosadas. Any Gabrielly assume o centro da narrativa e encontra espaço para construir uma personagem que precisa reaprender a lidar com o mundo. A presença de Giulia Be também ajuda a estabelecer a força da amizade que sustenta a história, embora o roteiro por vezes dependa demais da lembrança dessa relação para provocar emoção. Quando o filme confia nas pequenas interações e deixa os sentimentos aparecerem sem tanta insistência, funciona melhor. Quando tenta garantir a lágrima a qualquer custo, perde parte da espontaneidade. Dirigido por Diego Freitas, o longa tem méritos ao tratar o luto como algo que não se resolve de uma hora para outra. A questão é que sua mensagem sobre aproveitar a vida e enfrentar os próprios medos acaba ficando um pouco mastigada. Não falta boa intenção, mas falta confiar mais no espectador e permitir que os personagens sejam contraditórios, errem e amadureçam sem que cada passo precise vir acompanhado de uma lição. No fim, As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você tem apelo para quem gosta de dramas adolescentes com amizade, descobertas e emoção, mas dificilmente surpreende quem já conhece esse tipo de história. Com classificação indicativa de 14 anos, é um filme que pode encontrar seu público, especialmente entre os mais jovens, embora pudesse render muito mais se trocasse algumas fórmulas conhecidas por um pouco mais de humor, naturalidade e ousadia.
Se tem uma coisa que o cinema de ação sabe fazer é transformar uma tarefa simples em um verdadeiro pesadelo. Em Três Horas Para Viver, novo filme de Scott Waugh, uma entrega que deveria ser apenas urgente vira uma operação de sobrevivência, com perseguições, tiros e gente disposta a tudo para impedir que o destino chegue ao seu endereço. Alan Ritchson interpreta Hank Malone, um transportador de elite encarregado de levar um órgão vital para salvar uma menina de sete anos. O prazo é curto, e a situação piora quando Ben Bishop (Owen Wilson) entra na missão para proteger a carga e o criminoso Damián Zaldívar, vivido por Rodrigo Santoro, decide colocar as mãos no órgão. A partir daí, não faltam obstáculos para transformar o trajeto em uma corrida contra o relógio. Scott Waugh conhece bem esse território. Com experiência em filmes de ação e no trabalho como dublê, o diretor sabe organizar perseguições e confrontos para manter a adrenalina em alta. O problema é que ação bem executada não resolve tudo. A premissa oferece uma boa oportunidade para criar tensão de verdade, mas o roteiro recorre a situações familiares do gênero, apostando mais na sucessão de perigos do que em surpresas capazes de renovar a história. Ritchson tem o porte e a presença física esperados para o papel, enquanto Owen Wilson acrescenta uma dinâmica diferente à dupla. Já Rodrigo Santoro assume a posição de antagonista, mas a disputa entre os personagens nem sempre ganha a profundidade necessária para ir além do tradicional jogo de mocinhos e bandidos. Em uma trama na qual cada minuto deveria pesar, faltam momentos em que as escolhas dos protagonistas tenham consequências dramáticas mais fortes. Isso não significa que o filme seja incapaz de divertir. As sequências de ação, os efeitos práticos e a urgência da missão oferecem bons motivos para quem procura entretenimento sem grandes complicações. A questão é que, entre uma explosão e outra, a narrativa pouco faz para se diferenciar de tantas outras produções construídas sobre a mesma fórmula. A contagem regressiva funciona como motor da história, mas nem sempre consegue esconder a previsibilidade do percurso. Três Horas Para Viver entrega o que promete em termos de correria e confronto, embora tenha dificuldade para transformar sua premissa em algo realmente memorável. Com classificação indicativa de 16 anos, é uma opção para quem gosta de ação direta e não exige muita novidade do gênero. Para os espectadores que esperam mais do que adrenalina e cenas espetaculares, a sensação pode ser a de que o filme corre bastante, mas chega a um destino já conhecido. A indicação etária é para maiores de 16 anos.
A dica desta semana para assistir em casa vai para Mother Mary, drama musical dirigido por David Lowery que coloca os bastidores da fama no centro de uma história sobre amizade, ressentimentos e feridas que o tempo não conseguiu fechar. Disponível na HBO Max, o filme traz Anne Hathaway no papel de uma estrela pop que está prestes a voltar aos palcos, mas precisa reencontrar Sam (Michaela Coel), sua antiga amiga e figurinista. O que deveria ser apenas a preparação para uma nova apresentação acaba se transformando em um acerto de contas com o passado. Misturando música, drama psicológico e elementos sobrenaturais, a produção foge da cinebiografia musical tradicional e investe em uma relação marcada por afeto, mágoas e dependência criativa. Com uma atmosfera pouco convencional e duas protagonistas de presença forte, Mother Mary é uma opção para quem gosta de filmes que exploram o lado menos glamouroso da fama e mostram que, por trás dos holofotes, nem todas as feridas podem ser escondidas com um bom figurino.








