Chega esta semana aos cinemas em Nova Friburgo Michael, a aguardada cinebiografia dirigida por Antoine Fuqua. O longa não apenas reconstrói a trajetória do Rei do Pop, mas utiliza o rigor estético de Fuqua para transformar o legado musical em uma experiência visual visceral e tecnicamente impecável. A direção de Fuqua abandona o tom meramente documental para adotar uma linguagem de drama épico. A fotografia de Dion Beebe utiliza uma paleta que evolui conforme as décadas, das cores quentes e granuladas ao brilho clínico e contrastado da era Thriller e Bad. O uso de sombras é estratégico, sugerindo o isolamento de Michael sem precisar de excessos expositivos. O roteiro de John Logan acerta ao focar na dualidade entre o gênio criativo e a figura vulnerável. Jaafar Jackson entrega uma performance que transcende a imitação. Temos uma conexão espiritual nos movimentos que traz uma autenticidade assustadora às sequências de palco. Ao seu lado, Colman Domingo compõe um Joe Jackson que é a força motriz e, ao mesmo tempo, a sombra emocional da narrativa, equilibrando a rigidez com lampejos de uma ambição implacável. A sonoplastia e a mixagem são, previsivelmente, o coração da obra. Fuqua utiliza o som diegético para mostrar como Michael percebia o mundo como ritmo, do estalar de dedos aos ruídos do cotidiano que se transformam em batidas icônicas. O design de produção reconstrói momentos históricos com uma precisão cirúrgica, mas é na edição rítmica das performances que o filme realmente decola, capturando a energia que definiu uma era. Embora o filme opte por uma abordagem que prioriza o legado artístico, a solidez da execução técnica e a entrega do elenco garantem que Michael seja mais do que uma celebração nostálgica. É um estudo sobre a construção de um ícone e o peso da perfeição. Um espetáculo grandioso que reafirma a potência do cinema em capturar a essência de quem, por tanto tempo, pareceu maior que a própria vida. Vale o ingresso e a classificação Indicativa é para maiores de 12 anos.
A outra estreia desta semana nos cinemas é Um Pai em Apuros. A nova comédia nacional dirigida por Carol Durão adapta para a realidade brasileira a premissa de um sucesso argentino, busca equilibrar o humor físico das situações cotidianas com uma reflexão necessária sobre a sobrecarga materna e o papel da paternidade ativa. A narrativa acerta em cheio ao escalar Rafael Infante e Dani Calabresa, cuja química sustenta o ritmo do filme, enquanto Infante entrega um protagonista que transita entre a alienação cômica e o desespero genuíno, Calabresa humaniza a figura da mãe exausta, fugindo do estereótipo meramente punitivo. No enredo um pai viciado em trabalho tenta compensar sua ausência prometendo ao filho o cobiçado boneco Turbo-Man na véspera de Natal. Ele inicia uma jornada caótica pela cidade, enfrentando multidões enfurecidas e a concorrência implacável de um carteiro tão desesperado quanto ele pelo mesmo brinquedo. Entre confusões e perseguições, o roteiro satiriza o consumismo desenfreado das festas de fim de ano. A obra apresenta dualidades em sua execução. Pelo lado positivo, a direção de Durão é ágil, aproveitando bem o roteiro de Fil Braz para pontuar, através do riso, o conceito do “trabalho invisível” doméstico. É uma comédia com propósito que consegue entreter o público familiar sem perder de vista a crítica social. Por outro lado, o filme sofre com uma dependência excessiva de clichês do gênero, entregando situações de caos doméstico que beiram o previsível e que já foram exaustivamente exploradas em outras versões internacionais da mesma história. Além disso, a trama muitas vezes prioriza a “incompetência” cômica do pai em detrimento do desenvolvimento das subtramas dos quatro filhos, que acabam perdendo espaço para uma conexão emocional mais profunda. Esteticamente, o filme opta por uma linguagem universal que, embora eficiente para o grande público, acaba neutralizando as cores e sotaques locais, resultando em uma ambientação que poderia se passar em qualquer grande centro urbano. Apesar dessas oscilações, a solidez das atuações e a relevância do tema garantem que a produção seja mais do que um passatempo descartável. Vale o ingresso pela capacidade de gerar identificação imediata e por promover um diálogo importante sobre a dinâmica familiar moderna sob uma lente leve e acessível. A classificação Indicativa é para maiores de 12 anos.
A dica para assistir em casa esta semana vai para o tenso Rede Tóxica. Dirigido por Uta Briesewitz e disponível na HBO Max, o filme mergulha no perturbador mundo dos moderadores de conteúdo, acompanhando uma jovem que passa os dias filtrando o que de pior a internet produz. O que começa como uma rotina exaustiva vira um suspense obsessivo quando ela decide caçar o culpado por um crime brutal que viu em um dos vídeos. O longa foge da ação comum para focar no desgaste psicológico e no impacto emocional desse “trabalho invisível”, utilizando uma estética fria que reflete o isolamento digital. Lili Reinhart entrega uma atuação crua e visceral, mostrando o colapso de uma mente exposta ao trauma constante. É uma trama inteligente e desconfortável que emociona pela indignação e faz refletir sobre o custo humano para manter nossas redes sociais limpas. Um filme impactante e necessário que mostra que, às vezes, o maior perigo pode estar na tela que seguramos nas mãos.







