Estreia esta semana nos cinemas em Nova Friburgo O Diabo Veste Prada 2. Duas décadas após Andy Sachs (Anne Hathaway) abandonar seu telefone da Runway em Paris, o diretor David Frankel retorna ao universo da alta moda para provar que a relevância é um acessório muito mais caro que uma bolsa Birkin. No filme, o brilho das passarelas serve como pano de fundo para um drama corporativo mais sóbrio, que substitui a descoberta juvenil do primeiro filme por uma análise ácida sobre a sobrevivência do jornalismo tradicional em um mundo dominado por algoritmos e influenciadores. O roteiro de Aline Brosh McKenna acerta ao não tentar replicar a fórmula da “estagiária desajeitada”. Aqui, Andy é uma jornalista premiada e estabelecida que se vê obrigada a retornar à órbita de Miranda Priestly (Meryl Streep) para salvar a revista de um escândalo ético e da desvalorização financeira. A subversão da dinâmica original é o ponto alto. Miranda não é mais apenas a carrasca onipotente, mas uma figura quase crepuscular, lutando para manter sua voz humana contra a frieza dos dados. No elenco, Meryl Streep entrega uma Miranda transformada. Ela mantém o olhar gélido, mas imbuído de uma vulnerabilidade inédita, revelando o cansaço de quem se tornou um “monumento de museu” em vida. Anne Hathaway traz uma segurança elegante ao papel, servindo como um contraponto. No entanto, é Emily Blunt quem novamente rouba as cenas como alívio cômico e motor narrativo. Agora como RP da Dior, sua interação com o Nigel de Stanley Tucci mantém o DNA satírico que tornou o clássico de 2006 imortal. O filme substitui a estética vibrante dos anos 2000 por uma fotografia de tons mais frios e metálicos, espelhando a modernidade dos novos escritórios de tecnologia. O figurino de Molly Rogers continua sendo um espetáculo à parte, utilizando a moda não apenas como ornamento, mas como armadura para personagens que se sentem deslocados. Contudo, a produção tropeça em sua necessidade de fan service. Algumas participações especiais, como a de Lady Gaga, embora visualmente impactantes, parecem inseridas apenas para garantir o engajamento nas redes sociais, interrompendo o fluxo da trama principal. Além disso, o novo interesse romântico de Andy carece da força dramática necessária, funcionando apenas como uma peça decorativa em um roteiro que brilha muito mais nos corredores da redação do que na vida privada. O Diabo Veste Prada 2 é uma sequência que utiliza bem a nostalgia e não tem medo de apontar as rugas da indústria. É um filme sobre a resistência do talento diante da mediocridade do clique fácil. Pode não ter o impacto revolucionário do original, mas garante o seu lugar na vitrine pelo refinamento técnico e pelo carisma inabalável de seu elenco. Vale muito o ingresso e a classificação indicativa é para maiores de 12 anos.
A outra estreia desta semana nos cinemas em Nova Friburgo é Zico, O Samurai de Quintino.Esse é um registro cronológico de gols e títulos do jogador. Um estudo sobre a construção de um ícone. O filme utiliza a metáfora do samurai não apenas como um título poético, mas como um fio condutor que une a disciplina do craque à sua capacidade de resiliência diante das adversidades físicas e profissionais. A direção de arte e a montagem são os grandes destaques. O longa evita a armadilha das entrevistas estáticas excessivas, optando por uma narrativa visual que mescla imagens de arquivo raras, muitas delas restauradas com uma nitidez impressionante, com sequências contemporâneas capturadas em 4K. Essa alternância entre o granulado nostálgico do Maracanã dos anos 80 e a estética limpa do Japão moderno cria um contraste visual que reforça a longevidade da carreira do Galinho de Quintino. No centro da produção, o roteiro explora as camadas psicológicas de Arthur Antunes Coimbra. A obra acerta ao humanizar o mito, focando tanto na glória absoluta quanto nas dores profundas, como a traumática lesão de 1985 e as cicatrizes das Copas do Mundo. As participações de figuras como Junior, Adílio e até rivais históricos servem para validar a tese central de que o futebol de Zico era, acima de tudo, uma forma de expressão técnica e ética. A trilha sonora merece uma nota à parte. Ela foge do óbvio para abraçar uma sonoridade que funde instrumentos orientais com a percussão brasileira, estabelecendo a ponte cultural definitiva entre o Rio de Janeiro e Kashima. A fotografia, por sua vez, utiliza planos abertos para capturar a grandiosidade dos estádios, mas sabe se fechar no olhar de Zico, captando a serenidade de quem domina o seu ofício. Onde o filme encontra certa resistência é na sua duração. No desejo de cobrir cada etapa da vida do protagonista, o ritmo cai no terceiro ato, tornando-se por vezes contemplativo demais. Além disso, a obra hesita em aprofundar em possíveis controvérsias ou tensões de bastidores que poderiam dar um tom ainda mais realista à narrativa. Essa é uma peça fundamental para a preservação da memória esportiva brasileira. É um filme que trata o futebol como cinema e o atleta como um artista em constante estado de criação. Uma experiência obrigatória não apenas para os rubro-negros, mas para qualquer entusiasta da jornada do herói clássica. Vale o ingresso e a classificação indicativa é para maiores de 12 anos.
A dica desta semana para assistir em casa é A Vida de Chuck. Disponível na Prime Video para assinantes, o filme é uma das obras mais singulares da carreira de Mike Flanagan. Baseada em um conto de Stephen King, o obra subverte a cronologia tradicional ao narrar a biografia de um homem comum (Tom Hiddleston) de trás para frente, começando pelo fim do mundo. O grande trunfo da produção é a sua capacidade de transformar uma premissa apocalíptica em uma celebração vibrante da vida e das conexões humanas. Hiddleston entrega uma performance carismática e sutil, especialmente na memorável sequência de dança que serve como o coração rítmico do longa. Mark Hamill, em um papel coadjuvante de peso, traz a gravidade necessária para os temas de mortalidade e destino. Visualmente, Flanagan abandona as sombras do seu terror habitual por uma fotografia calorosa e composições que exaltam o extraordinário no cotidiano. Se você busca um filme que desafia gêneros, equilibrando o fantástico com uma sensibilidade poética sobre o que deixamos para trás, esta é uma boa escolha.







